VERISSIMO,

04 de agosto de 2013 | 02h15

- O quê?

- Mandrake!

- O que é isso?

- Você nunca brincou de Mandrake?

- Não!

- A gente apontava para uma pessoa, dizia "Mandrake", e a pessoa tinha que ficar paralisada. Como uma estátua.

- Nunca ouvi falar.

- Mandrake era um mágico. Um personagem de gibi.

- De quê?

- Gibi. Você também nunca ouviu falar de gibi?

- Nunca.

- Histórias em quadrinhos. Mandrake, o Mágico, combatia o mal com seus truques. Ele estava sempre de fraque e cartola. E tinha um ajudante fortão. Uma espécie de escravo. Como era o nome do ajudante do Mandrake, meu Deus?

- O Mandrake vivia de fraque e cartola e tinha um escravo?

- Não era bem um escravo. Era um companheiro. Chamado, chamado...

- Não sei se eu estou gostando desse personagem. Um aristocrata, com um escravo... Não eram amantes, não?

- Não, não. Naquele tempo não se pensava nisso. Muito mais tarde é que se começou a desconfiar do Batman e do Robin, por exemplo. Que ali tinha coisa. O Mandrake era um homem fino, mas não era um aristocrata, e muito menos homossexual. Ele era cerebral, nunca usava a força bruta. O outro é que fazia o trabalho pesado.

- Mas o superpoder do Mandrake era só o de paralisar os outros? Transformá-los em estátuas? E depois mandar o "companheiro", entre aspas, bater no paralisado?

- Você pode fazer pouco, mas a verdade é que o Mandrake e o outro eram mais do que apenas heróis de gibi. Simbolizavam a divisão entre mente e corpo, intelecto e energia física, o saber e o fazer, que tem sido uma constante da experiência humana desde o tempo das cavernas. Tinham um significado maior, mesmo para os leitores de gibi. Não eram pura fantasia juvenil, como Namor, o Príncipe Submarino, por exemplo.

- Quem?

- Namor, o príncipe sub... Esquece. Já vi que essa conversa não vai a lugar nenhum. Não há diálogo possível entre uma geração que nunca ouviu falar no Mandrake e a minha.

- Querido, você ficou bravo só porque eu...

- Não fiquei bravo. Só me dei conta que essa nossa relação não tem futuro. Loucura minha, me meter com alguém da sua idade. E não, transformar os outros em estátua não era o único poder do Mandrake. Ele fazia mágicas de todo tipo. Transformava punhais em pássaros em pleno voo. Você sabe o que é isso? Punhais em pássaros!

- Está bem, está bem. Já sou admiradora do Mandrake. Vem até aqui que eu quero lhe dar um beijo. Ou então fique paralisado que eu vou até aí. Mandrake!

- Lothar!

- Hein?

- Me lembrei. O nome do ajudante do Mandrake era Lothar.

- Ótimo. Agora vem cá, vem, seu bobo. E me conte tudo sobre esse Nomar, o Príncipe Submarino.

- Namor!

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