Mandela, um herói pragmático

Autobiografia mostra que o líder negro sul-africano acabou com o apartheid ao adaptar suas convicções às circunstâncias

Marcos Guterman, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2012 | 03h09

A força de Nelson Mandela - Longa Caminhada até a Liberdade, autobiografia do líder negro sul-africano que acaba de sair no Brasil, não está propriamente nas lembranças dos tempos de prisão - embora não se possa negar a contundência dessas memórias. Mas elas são apenas complementares de um manifesto político, que é o que emerge da leitura do texto escrito por Mandela a partir do cárcere.

O líder diz que uma de suas leituras favoritas na prisão da Ilha de Robben, onde ficou entre 1964 e 1990, era Guerra e Paz. Em sua visão, o marechal russo Mikhail Kutuzov (1745-1813), descrito por Tolstoi como um herói sábio, derrotou Napoleão porque "tomou suas decisões com base em uma compreensão visceral de seus homens e de seu povo", ignorando os "valores superficiais" da Corte russa. Kutuzov foi o homem que surpreendeu ao entregar Moscou aos franceses, sabendo que seria uma guerra perdida, e preferiu reorganizar suas forças para enfrentar Napoleão mais tarde. A estratégia funcionou - e é sobretudo de estratégia, e não de moral, que o livro de Mandela trata. "O povo só queria uma coisa: livrar o solo pátrio do invasor", escreve Tolstoi, resumindo exatamente o raciocínio de Mandela - isto é, para ele, qualquer método era válido, desde que fosse eficiente para atingir o objetivo, que era acabar com o regime de segregação racial.

Esse pragmatismo é a marca de Mandela. Sua trajetória mostra um homem que soube adaptar suas convicções para enfrentar o desafio político que se lhe impôs. Um exemplo foi sua relação com o comunismo, pela qual ele foi severamente julgado. No início, nos anos 40, ele relutou a aceitar a união dos ativistas negros com os comunistas porque isso implicaria admitir os brancos "solidários" nas fileiras do movimento contra o apartheid - que Mandela via não como conflito de classes, e sim como luta nacionalista negra. Ademais, escreve, "se os negros se vissem diante de uma forma de luta multirracial, eles continuariam enamorados pela cultura do homem branco e seriam presas de uma sensação contínua de inferioridade".

Contudo, mais tarde, Mandela distanciou-se desse conceito radical e admitiu ter se sentido "fortemente atraído" pela ideia de uma sociedade sem classes, que oferecia similaridades com "a cultura tradicional africana onde a vida era compartilhada e comunal". No limite, porém, ele não estava abraçando o comunismo, embora concedesse que o materialismo dialético lhe tenha proporcionado, na época, uma solução para "transcender negros e brancos". Além disso, o Partido Comunista era a única agremiação política que tratava os negros africanos "como seres humanos e seus iguais", razão pela qual, mesmo hoje, muitos no país "tendem a igualar a liberdade com o comunismo".

Entretanto, Mandela diz que sua relação com o comunismo foi apenas instrumental. "Eu estava preparado para utilizar quaisquer meios para acelerar o rompimento do preconceito humano e o fim do nacionalismo violento e chauvinista", escreve. "Eu não precisava me tornar um comunista para poder trabalhar com eles."

Depois, quando foi cobrado no tribunal por sua relação com os comunistas, ele disse que era "meramente prova de um objetivo comum - no caso, a remoção da supremacia branca - e não é prova de comunhão completa de interesses". Sobre o julgamento da história, é enfático: "Os cínicos sempre sugeriram que os comunistas estavam nos usando. Mas quem pode dizer que não éramos nós que os estávamos usando?" É uma aula de política.

O mesmo padrão se observa na luta armada. Para Mandela, a não violência só seria desejável se as circunstâncias permitissem. Esse raciocínio presidiu a decisão de pegar em armas. "Eu via a não violência no modelo de Gandhi não como um princípio inviolável, mas como uma tática a ser utilizada à medida que a situação exigia", escreve ele.

Em entrevista quando ainda estava na prisão, em 1984, Mandela reiterou que não fazia profissão de fé nem da luta armada nem da não violência e invocou um poderoso paralelo: "Até mesmo Cristo, quando foi deixado sem alternativas, usou a força para expulsar os vendilhões do templo. Ele não era um homem violento, mas não teve escolha senão usar a força contra o mal."

É em momentos como esses que o manifesto de Mandela se revela um evangelho político em sua plenitude. Ao analisar ontologicamente sua liderança, ele diz que não teve "uma epifania, nenhuma revelação, nenhum momento da verdade, mas um acúmulo constante de milhares de ofensas", que produziram nele "uma cólera, uma rebeldia, um desejo de lutar contra o sistema que aprisionava meu povo".

Por outro lado, essa construção da mitologia sobre o pai da nação sul-africana teria necessariamente de incluir os homens brancos, superando dialeticamente a questão racial, e então Mandela expressa toda sua envergadura moral ao compreender mesmo o mais feroz de seus algozes: "O opressor tem de ser libertado tanto quanto o oprimido. Um homem que tira a liberdade de outro é um prisioneiro do ódio, está preso atrás das grades do preconceito e da pobreza de espírito."

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