Manaus como cenário

Da Lulu de Alban Berg a uma Flauta Mágica "amazônica", festival se afirma como polo de produção

JOÃO LUIZ SAMPAIO , MANAUS, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2012 | 03h10

O centro de Manaus parece parado no tempo, preso entre duas realidades. De um lado, a recém-restaurada arquitetura da Belle Époque amazonense, fruto do auge do comércio da borracha no século 19, envolve o centenário Teatro Amazonas no Largo São Sebastião. De outro, não longe dali, a arquitetura rude e cinzenta segue imutável, ano após ano, convivendo com palafitas que evocam a vida ribeirinha - e a precariedade de uma urbanização feita pela metade.

Nas últimas semanas, porém, os dois cenários convergiram a um mesmo espaço - o da arte. Destaque da 16.ª edição do Festival Amazonas de Ópera, uma nova montagem da Lulu, de Alban Berg, trouxe a ação da Europa para o Brasil. E, se nos dois primeiros atos é a paisagem carioca que acompanha a trama, o desfecho trágico da história se dá em uma Manaus feita de palafitas, castigada pela chuva. "Precisava ser assim", disse à imprensa o diretor hispano-argentino Gustavo Tambascio. "Lulu precisava morrer em Manaus, em palafitas, no final do carnaval, pelas mãos de um serial killer", completou.

Na versão original, Lulu morre em Londres - pelas mãos de Jack, o Estripador. "Original" em termos. Berg morreu em dezembro de 1935, antes de completar o último ato. Arnold Schoenberg não quis terminar a obra - e a mulher do compositor proibiu então que alguém o fizesse. Apenas com sua morte, nos anos 70, um novo final foi encomendado, a partir das anotações de Berg. Trinta anos depois, a montagem manauara marca a estreia latino-americana da versão.

Mesmo incompleta, Lulu já havia conseguido a façanha de ser um dos pilares da história do gênero. Fazendo uso da técnica dodecafônica, se mantém fiel ao espírito da vanguarda sem abrir mão da fluência narrativa e de certa dose de lirismo que, no fim das contas, estão no cerne do gênero. Baseada na peça de Frank Wedekind, narra a história de uma mulher que coleciona amantes e, no final da ópera, é perseguida pelo passado até se entregar à morte.

Não há nessa trajetória moralismo ou redenção. Em um contexto sufocante, tomado por desejos e sensações, nenhuma certeza do espírito dura mais que alguns compassos. O símbolo da desconstrução é o amor que todos buscam, ainda que signifique a destruição. E o homem, na ópera, foi poucas vezes tão precário, contraditório - e humano.

Luiz Fernando Malheiro, diretor artístico do festival, conta que levar Lulu ao palco era um sonho antigo. Um título como esse, no entanto, não se constrói a partir do vazio. E foi apenas a experiência adquirida durante as 16 edições do evento, com obras como a tetralogia O Anel do Nibelungo, de Wagner, que permitiu a façanha. A princípio, conta, o plano era ter um elenco totalmente brasileiro. "Mas depois de vários convites feitos e recusados, tivemos que buscar pelo menos três cantores europeus. O processo de ensaios foi lento e cuidadoso. A orquestra resistiu um pouco, mas acabou se envolvendo também com a partitura e a novidade."

Malheiro, responsável pelo desempenho impecável da Amazonas Filarmônica, não revela os nomes daqueles que, assustados com a dificuldade da partitura, desistiram do projeto. Mas o esforço parece ter recompensado os que disseram sim. Se os estrangeiros - a soprano Anke Berndt, como Lulu, entre eles -, deram aula de interpretação, brasileiros como Eduardo Amir, Gilberto Chaves, Pepes do Valle, Juremir Vieira e Carolina Faria não apenas tiveram desempenho vocal excelente, como se mostraram à vontade na cena fragmentada, que a todo instante flerta com o absurdo, proposta por Tambascio.

Na cartilha do festival, a ousadia de programar Lulu divide espaço com uma nova produção de uma favorita do público, A Flauta Mágica. Com estreia prevista para o próximo fim de semana, a produção tem direção musical de Marcelo de Jesus e um elenco encabeçado por dois brasileiros, o tenor Giovanni Tristacci e a soprano Gabriella Pace. E, como Lulu, também terá a paisagem amazonense como pano de fundo.

Malheiro conta que foi mera coincidência. E o encenador Robert Drive confirma. Há 20 anos ele dirige a Ópera de Filadélfia. E há "algum tempo" queria produzir nos Estados Unidos uma "Flauta Amazônica". Depois de conhecer o Festival Amazonas, procurou Malheiro com a proposta de uma coprodução. "Eu queria uma montagem que se concentrasse na oposição entre o bem e o mal, com o natureza como pano de fundo, o que me parece fundamental na obra. Natural que a história se passasse então na Amazônia." A Rainha da Noite, assim, tornou-se uma "empresária impiedosa cuja ambição e cobiça são capazes de reduzir a floresta a cinzas". Já Tamino, o herói mozartiano, é visto como o neto de Alexander Humboldt, pesquisador alemão que pesquisou a flora e a fauna amazonenses no século 19.

O diretor rechaça qualquer ideia de exotismo. Evoca a própria história - nasceu no Brasil e mudou-se na infância para os Estados Unidos - como forma de demonstrar sua relação com a terra. Quando entrou na faculdade de artes cênicas, conversou por telefone com o pai, que ficara no Brasil - e ele lhe disse que precisava conhecer a casa de ópera de Manaus. "É bom estar aqui", completa.

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