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Manara de olho nas garotas de Ipanema

Lenda da HQ erótica europeia vem ao País e anuncia álbum sobre brasileiras

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2010 | 00h00

Em dentes, pernas, bandeiras/ bomba e Brigitte Bardot.

O verso tropicalista de Alegria Alegria, de Caetano Veloso, cai como uma luva para definir o universo cheio de curvas do cartunista italiano Milo Manara, um dos mitos do quadrinho erótico europeu. Suas mulheres de bocas carnudas, pernas longilíneas e aspecto selvagem escapuliram diretamente de mais do que uma costela da atriz Brigitte Bardot - e caíram como bombas acariciantes há 40 anos no imaginário masculino de todo o mundo.

"No meu erotismo, a mulher é sempre um sujeito sexual, mais que um objeto", disse ao Estado o desenhista italiano, tentando explicar o protagonismo de suas Bardots. No dia 13 de novembro, às 20 h, o mestre das HQs preferidas dos onanistas dos quatro cantos do planeta descerá finalmente no Rio de Janeiro.

A Rio Comicon 2010 vai ocupar a Estação da Leopoldina, no Rio, entre os dias 9 e 14 de novembro. Os convidados são artistas de altíssimo nível, como o premiado francês François Boucq; o editor italiano Claudio Curcio; os ingleses Kevin O"Neill (de A Liga Extraordinária), Melinda Gebbie (Lost Girls, mulher da lenda Alan Moore) e o também editor Paul Gravett; Etienne Davodeau e Patrice Killofer; o alternativo Jeff Newelt; e os argentinos Lucas Nine e Patricia Breccia.

Manara contou ao Estado que prepara o derradeiro volume de sua história Bórgia, que narra a saga de Lucrécia Bórgia, filha de papa, uma crítica violentíssima à Igreja e suas instituições sagradas. "Depois disso, eu gostaria de me dedicar um pouco à pintura e à ilustração, e pode ser que eu me dedique, nessa viagem ao Brasil, a realizar um livro de ilustrações sobre as belas brasileiras."

A primeira parte de Bórgia, Sangue para o Papa, foi engendrada com o parceiro chileno Alejandro Jodorowsky. Ali, Manara aborda o tema do poder absolutista corruptor da religião. Na história, Manara examina os porões do Vaticano, no papado de Rodrigo Bórgia, e a tirania que este exerceu sob o nome de Alexandre VI, ao lado da filha Lucrécia. A venda de indulgências, o nepotismo, a promiscuidade e a ganância pelo poder político, além de cenas de vampirismo, canibalismo, estupros e assassinatos, tingem de vermelho as páginas dessa HQ.

"Meu amor pelos quadrinhos nasce nos anos 60, quando vi Barbarella, de Jean-Claude Forest; Valentina de Guido Crepax; Jodel et Pravda de Guy Pellaert e todas as histórias de Magnus", contou o cartunista. "Nos anos 70, eu lia muito revistas como Métal Hurlant e apreciei enormemente o gênio de Moebius, a quem todos os desenhistas devem muito. Evidentemente, toda minha vida profissional, e não somente ela, foi influenciada pelo meu amigo Hugo Pratt."

Com Hugo Pratt, o veneziano criador do imortal personagem Corto Maltese, Manara fez o fascinante álbum Verão Índio (de 1983, HQ que só teve sua primeira edição no Brasil no ano passado, 22 anos depois, pela Conrad), e El Gaucho (1991). O desenho de Manara é primoroso, o humor é cáustico e irônico, o erotismo tingido com tintas do sadomasoquismo (pode tranquilamente ser considerado uma espécie de Sade dos quadrinhos). Como Guido Crepax (Valentina) e Serpieri (Druuna), é um craque em coreografar fantasias sexuais e usar o sonho como espaço para tratar do sexo como uma zona franca.

Parceria. Por conta de sua liberdade formal e focos de interesse anticomerciais, ele é o também um antiamericano por excelência. Ainda assim, a indústria americana de HQs o convidou para desenhar um episódio da mais bem-sucedida história em quadrinhos da atualidade: os X-Men. Claro, como o convidado era Manara, deixaram-no à vontade para desenhar somente com as personagens femininas: Tempestade, Kitty, Vampira, Garota Marvel, Psylocke e Rachel nunca mais serão vistas da mesma maneira depois dessa edição. O parceiro escolhido foi um grande artista da indústria, o britânico Chris Claremont (que desenhou, entre outros, Conan, Luke Cage e Quarteto Fantástico).

"Primeiro, eu pensava que seria difícil. Mas depois se revelou ainda mais difícil do que eu pensava", conta. Brincalhão, no prefácio da edição ele esclarece que, de todas as X-Men que desenhou, gostaria de ter os poderes de Kitty, para poder "passar através dos muros". Alegria, Alegria: o maestro de fantasias está a caminho!

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