Mamma África

Em sua nova peça, diretora Cibele Forjaz leva adiante sua investigação sobre formação do Brasil

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2012 | 03h10

É como se o País inteiro fosse um navio negreiro. Uma nau à deriva, perdida em algum lugar entre dois continentes. Em seu novo espetáculo, a diretora Cibele Forjaz e a sua Cia. Livre lançam olhar para a questão da identidade nacional. Mas o fazem sob um viés incômodo. Abrem as feridas não cicatrizadas da escravidão. Tratam de relacioná-las à trágica história de Édipo, o rei que padece justamente por desconhecer sua origem.

A Travessia da Calunga Grande, que entra em cartaz no Sesc Pompeia no dia 8 de março, é resultado de uma extensa pesquisa do grupo. Levou mais de um ano para ser gestado. E, além disso, guarda parentesco com um projeto que movimenta a companhia há quase uma década: investigar a formação brasileira, detendo-se especificamente sobre os mitos de morte e renascimento dentro dessa cultura.

Foi com essa temática nada palatável que Cibele Forjaz cunhou seu espetáculo de maior sucesso: VemVai - O Caminho dos Mortos. A montagem, com dramaturgia de Newton Moreno, estreou em 2007 e mirava as concepções de morte dos povos indígenas. De tão vasto, o assunto renderia ainda uma outra criação: Raptada pelo Raio, peça de 2009. "O contato com o pensamento dos povos da floresta foi um choque", lembra a atriz Lucia Romano, protagonista da atual montagem.

O novo trabalho foca questões semelhantes, mas direciona o olhar para um outro território. Investiga os vínculos entre África e Brasil, centrando-se em dois dados fundamentais: a mestiçagem e a escravidão. "O tráfico de escravos é algo muito determinante em toda a relação África-Brasil", considera a diretora. "Foi uma diáspora terrível, um holocausto. Não haveria como tratar de morte sem passar por aí. Além disso, a estrutura escravista é algo que tentamos jogar para baixo do tapete, mas está presente hoje, aqui e agora."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.