Mamberti: a um passo da Secretaria de Cultura

A presença de Marta Suplicy no segundo turno com 40% do eleitorado só alegra o ator e diretor Sérgio Mamberti. Comemorando seus 40 anos de carreira artística junto com o irmão Cláudio, Sérgio dirige o espetáculo O Homem do Caminho em cartaz no TBC. A peça é baseada em texto inédito do amigo de infância e conterrâneo santista, Plínio Marcos, morto ano passado. "É uma peça onde ele fala de uma geração de artistas que viveu intensamente todas as suas ideologias políticas, uma época em que achávamos que com o teatro poderíamos mudar o mundo", diz o diretor.Nestes 40 anos, sua vivência política sempre se confundiu com a vida artística. Militante-fundador do Partido dos Trabalhadores, o PT, Sérgio sempre esteve na liderança dos movimentos culturais da entidade. Em 94 desenvolveu o projeto cultural do programa de governo do candidato à presidência, Luís Inácio da Silva. Depois de tanto trabalho pela cultura e pelo partido, Sérgio Mamberti é tido, pelos seus correligionários, como natural secretário de cultura de São Paulo, na provável vitória de Marta Suplicy. Numa conversa descontraída, o Estadao.com.br debateu as idéias de Mamberti para a cultura na capital paulista."A minha militância partidária só aconteceu por eu achar que a cultura tem um papel muito importante na construção de uma sociedade realmente democrática. É através do processo cultural que se constroem os valores sociais. É através da garantia da expressão do cidadão que você começa a pensar em Cidadania Cultural", afirma Sérgio, usando o conceito proposto pela Unesco na conferência O Poder da Cultura de 98, e desenvolvida para o programa de governo de 94.Mamberti é um dos fundadores do Instituto Florestan Fernandes, o braço de estudos sócio-culturais do PT, do qual Marta era a presidente. Foi lá que ele conheceu a candidata e pôde se aprofundar nas discussões sobre a importância política da cultura. "Ela tem um papel estratégico na manutenção dos traços nacionais. Com a globalização, a produção audiovisual hoje é onde se fixa todos os traços nacionais. Para se ter uma idéia, 75% das imagens produzidas no mundo são dos Estados Unidos. Incentivar a produção de cinema brasileiro passa a ser uma questão de soberania nacional". Investimentos - Percebendo isso, quase todas os prefeituráveis deste ano, mostraram em suas campanhas uma atenção maior com a cultura. Com maior ou menor ênfase todos associaram os investimentos culturais ao bem-estar social. Mamberti afirma ainda que "quando é dado dinheiro para cultura você pode diminuir o orçamento de segurança e da manutenção da cidade para acabar com o vandalismo"."O patamar atual de investimento da prefeitura é de 0,7% do orçamento, que dá cerca de R$ 100 milhões. Eu tenho conversado com a Marta e ela concorda em aumentar gradativamente este percentual durante o mandato, a minha meta é de que no final da gestão nós cheguemos em 3%". Esta é a recomendação da Unesco para a área.Apesar das críticas que as leis de incentivo à cultura têm recebido da classe teatral, principalmente do movimento Arte Contra a Barbárie, Mamberti é a favor do seu uso na implementação da verba para cultura. "Temos que perceber que a Lei Mendonça proporciona um grande calendário cultural para a cidade. Ela não seleciona as manifestações culturais por critérios subjetivos. O critério é a seriedade com que o projeto é levado independente do seu teor", defende."Com a lei de incentivo à cultura do município, são investido cerca de R$ 27 milhões anuais, mas pela lei o teto é de 2% a 5% da arrecadação do ISS e do IPTU, que dá mais de R$ 40 milhões. Ou seja: tem gente que não está sendo atingido pela lei. A Secretaria de Cultura deveria incentivar as empresas a aproveitar esta porcentagem que está sobrando da renúncia fiscal da prefeitura", diz ele. "Mas ela serve como complemento ao investimento que a prefeitura tem que fazer através do orçamento e de outros fundos criados só para a cultura", relativiza.Um dos fundos de cultura imaginados pelo ator já foi proposto pelo vereador Vicente Cândido, reeleito pelo PT. Ele aumenta a taxação do subsolo, utilizado por empresas para passar cabos de telefonia e fibra ótica. Segundo Sérgio, o preço cobrado em São Paulo está muito abaixo do resto do mundo e o dinheiro desta revalorização iria para um fundo de cultura administrado pela secretaria.E Mamberti tem ainda alternativas: "Outra forma de se otimizar o orçamento é fazer interfaces entre áreas próximas como por exemplo cultura e educação. A cultura pode estar usufruindo de verbas que seriam da educação em projetos comuns a ambos". Democratização e qualidade - Na opinião de Mamberti, o envolvimento da cultura com a educação é muito grande. "A qualidade da cultura é resultado de um processo de sedimentação da educação. O Brasil tem muitas manifestações culturais na rua, desde as procissões, as escolas de samba, os blocos de maracatu, as festas religiosas, as festas do boi. O governo tem que cuidar para que estas tradições permaneçam, como Mário de Andrade fez com o resgate das cantigas de roda. Mas com o crescimento da indústria cultural essas tradições foram se desgastando. O que a Secretaria deve garantir é que a indústria cultural não homogeneíze a pluralidade destas manifestações".Mesmo com as apelativas tardes de domingo, onde as emissoras de TV se degladiam por alguns pontos de audiência, Mamberti acredita que só dando espaço para as manifestações culturais é que a população vai poder separar o joio do trigo. "Eu concordo que hoje exista realmente uma mediocrização, mas no começo a gente vai ter que contar com este ´lixo cultural´ que vai estar permeando as manifestações mais genuínas. Os grupos de dança de rua, por exemplo, são menosprezados pelos bailarinos, mas podem compor um espetáculo fantástico como o Ivaldo Bertazzo conseguiu mostrar em Mãe Gentil", cita a peça em cartaz no Sesc Belenzinho que faz coreografias de dança de rua com crianças e adolescentes da periferia de São Paulo."Eu acho o movimento hip hop paulista é um dos mais importantes movimentos culturais do País. Ele tem uma poética extremamente elaborada e ousada. São pessoas que falam dos problemas sociais e ajudam as pessoas da periferia, como os Racionais MC´s, e não entram no projeto de consumo capitalista", empolgando-se com a banda de rap que vendeu mais de 500 mil exemplares do último disco, Sobrevivendo ao Inferno, por um gravadora independente e sem nenhuma divulgação da mídia. "Eles fazem tudo isto sozinhos, imagina se tiverem um projeto cultural que permita que eles ampliem este movimento". Se Marta Suplicy vencer o embate com Paulo Maluf e Sérgio Mamberti conseguir estabelecer suas metas, o bairro do Bexiga parece ser uma das prioridades do governo. "Na gestão da Erundina, a secretaria tinha um projeto de revitalização do Bexiga, que acabou sendo enterrado por Maluf", lamenta o morador do bairro há 33 anos e membro do movimento Viva o Bexiga. Além da manutenção do patrimônio arquitetônico do bairro, ele diz que a prioridade do projeto é a preservação das pessoas. "No projeto as partes mais importantes são a restauração da arquitetura do bairro, valorização do museu do Bexiga e das praças, restauração da Vila Itororó, o uso do Hospital Matarazzo, que está tombado, para atividades culturais e preservar o teatro Oficina", este último que, na atual gestão, tem sido ameaçado de perder seu espaço com a conivência do governo municipal. Outro tradicional reduto cultural paulistano, não podia ficar de fora. O Theatro Municipal de São Paulo tem sido ameaçado por intenções de privatização. Seria esta a solução para a democratização da cultura que todos os candidatos defendem? "A estrutura administrativa do Municipal é extremamente obsoleta, mas acho que o melhor jeito de administrar é com uma fundação de patrimônio público e em hipótese nenhuma privatizar", afirma categórico.

Agencia Estado,

15 de outubro de 2000 | 22h35

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