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Mamãe

O Dia das Mães passa e as mães ficam. Na boa ou má memória, como seres ausentes ou presentes. As provetas podem produzir bebês, mas só a maternidade constrói seres humanos dotados de capacidade para transitar entre afetos, angústias e amor - essa coisa propositadamente desmedida.

Roberto Damatta, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2013 | 02h09

Não há mãe sem classificação porque todos têm mãe, como se diz aqui no Brasil. E quem tem mãe tem um mínimo de humanidade porque, conforme aprendi na escola, antes de ter lido Câmara Cascudo e de ser um estudante de sistemas de parentesco, a "mãe" é uma entidade interditada. Trata-se de termo sagrado que não pode ser invocado por qualquer pessoa ou em qualquer lugar sob pena de reação imprevisível.

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Sonhei com um encontro com mamãe, confidenciou-me nesse último domingo, Dia das Mães, o meu lado mais problemático para o meu lado sem nenhum problema. Essas direitas e esquerdas que alguns ainda carregam dentro de si. E como foi? Um lado perguntou ao outro.

- No sonho, ela surgia bonita e com a fragrância de "leite de rosas", seu perfume favorito. Abraçou-me com a intensidade do tempo que nos separava desde a sua morte e me beijou no rosto. A mão que tocava o piano deslizou pelo meu rosto aparando minhas lágrimas. Então nós nos olhamos como dois velhos. A idade subtraía a distância que nos fez filho e mãe, mãe e filho.

- Mamãe, mamãe, mamãe... Eu soluçava com o alvoroço alegre dos que sabem que o milagre é veloz. E mamãe me confortava com o sereno carinho das mães - com aquele afago que prenuncia todos os afetos a serem posteriormente vividos ou suprimidos.

- Que luta essa sua, não?

- Verdade, mas todas as portas têm dois lados, respondi.

Ela me deu um abraço concluído. Abraço de regaço e colo que nós, homens, estamos sempre à procura.

- Eu vejo todos vocês, mesmo neste mundo sem tempo ou espaço onde estou. Mas foi o seu chamado que me ressuscitou. Foi o poder da narrativa nascida no seu coração que me deu vida.

- Palavras, palavras, palavras... Repetia o meu lado que havia lido Shakespeare.

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Não me lembro de minha mãe comendo. Tenho a memória de papai sendo servido em primeiro lugar e apreciando a nossa boa e farta comida. De mamãe só tenho a recordação da mulher em volta da mesa, servindo a cada um de nós com precisão, cuidado e carinho

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A mais grata memória de minha mãe surge com a música do seu piano. Vejo meu pai mudo e feliz, sentado na velha cadeira de balanço e vejo as mãos certeiras de mamãe atacando as teclas do piano e produzindo o milagre dessa arte que se faz se fazendo a si mesma no momento em que é feita. A melodia enchendo a sala modesta e renovando o encantamento pelo mundo que tem muito de péssimo, mas é sempre redimido pela música. Essa música que se concretiza de modo diferente cada vez que é "tocada" ou "cantada".

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Minha mãe, Maria de Lourdes Perdigão da Matta (Lulita), era filha de uma viúva cujo marido, Carlos da Silva Perdigão, foi assassinado no bar "A Phenix", de uma Manaus de teatro e sorvetes, numa trágica tarde de 24 de setembro de 1908. Morto por dois tiros de um revólver Galand, deixou minha avó, Emerentina de Azevedo Perdigão, com dois meninos e uma menina. Emerentina superou a desgraça ao encontrar numa outra tarde um magistrado baiano chamado Raul Augusto da Matta, pai de um menino e de uma menina.

Esse encontro acabou num casamento de viúvos com filhos que logo confirmaram sua felicidade tendo outros filhos. Seis filhos desse novo casamento dos quais a morte levou a metade - dois quando crianças, outros, um jovem e dois adultos. Vovó dizia que sua sina era enterrar filhos e eu mesmo a acompanhei quando ela perdeu seu filho mais velho, em nossa casa, aqui em Niterói.

Mas, para Raul e Emerentina, o mais difícil de lidar não foram essas mortes todas (afinal todos morremos), mas o amor inesperado nascido entre Renato, o filho mais velho do viúvo, e de Lulita, a filha mais nova da viúva Emerentina, esses que foram meus amados pais.

- Como foi esse casamento entre vocês, irmãos de criação? Tive a liberdade de perguntar no sonho.

- Maravilhoso, disse mamãe receosa de ser invejada pelos anjos. Era um paraíso essa intimidade com um meio-irmão que virou namorado e marido. Nessa relação, o "impossível" e o "proibido" se entenderam e eu recebia o máximo da endogamia, cujo limite é o incesto, ao lado daquele porcentual mínimo de risco da exogamia que, levada ao extremo, como vocês antropologistas sabem muito bem, conduz à guerra. No meu caso feliz - continuou mamãe -, quem deu minha mão a seu pai foi o meu amado padrasto, o pai do seu pai; e quem abençoava meu matrimônio foi a sogra postiça que era, ao mesmo tempo, minha mãe, sua amada avô Emerentina. Essa fusão de afinidade com consanguinidade era a felicidade plena: meus cunhados foram meus irmãos. Foi o dia mais feliz da minha vida!

Só tive dias iguais quando você, seus quatro irmãos e sua irmã nasceram. Terminou ela desaparecendo, depois de me abraçar longamente e exorcizar as minhas angústias.

Quando esse meu lado terminou a fantasia do sonho; o outro lado, aquele sem nenhum problema, acordou e, incontido, falou alto quase aos berros: mãe é mãe!

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