MAM inaugura seu Panorama da Arte Brasileira 2007

Curador da mostra valoriza o tosco como metáfora da fragilidade construtiva das improvisações

Camila Molina, do Estadão,

18 Outubro 2007 | 20h02

A tarefa de organizar uma mostra sobre o que seria a arte brasileira deste momento pode ser definida como, no mínimo, difícil - para não dizer um tanto pretensiosa - quando se pensa na complexidade dessa que é proposta já tradicional do Museu de Arte Moderna de São Paulo.   Galeria de fotos     A cada dois anos - e antes, anualmente -, a instituição convida um curador a realizar uma edição do Panorama da Arte Brasileira, projeto que faz parte do calendário do museu desde 1969. Mas Moacir dos Anjos, que assina a curadoria do Panorama da Arte Brasileira 2007, a ser inaugurado nesta sexta-feira, 19, no MAM, acha que a riqueza desse projeto está justamente em seu "caráter ensaístico".   O Panorama é, portanto, uma visão particular do curador sobre a produção artística e não um mapeamento do que se está fazendo de norte a sul do Brasil - por isso, como ele diz, a presença de artistas já inscritos no circuito artístico. "Muitos Panoramas acontecem em paralelo", diz Moacir dos Anjos. No caso de sua mostra, sua proposta foi a de ressaltar no conjunto das obras as contradições da vida neste País.   Contraditório é o título da exposição. "Discuto a questão da identidade, mas fugindo de clichês", diz o curador. O que ele coloca, por meio das obras de 28 artistas e de um grupo, o Chelpa Ferro (formado por Luiz Zerbini, Sergio Mekler e Barrão) - que realiza nesta sexta, às 13h, uma performance inédita no auditório do museu -, são produções que articulam, como diz Moacir, tanto as tradições locais (os sotaques) como "planos de vida no campo simbólico". Por isso, o curador usa a chamada "poética da gambiarra" como metáfora nesse projeto curatorial do Panorama 2007.   As gambiarras não estão presentes materialmente nas obras, mas sim no plano simbólico que deixa latente contradições. Os mecanismos criados de forma improvisada na ‘poética da gambiarra’ revelam que a criatividade brasileira nasce do ter de lidar com tanta precariedade (social/econômica, etc.), mas eles também exprimem a subordinação política, "a incapacidade de o País lidar com problemas básicos", diz o curador. Gambiarras sugerem, como escreve Moacir dos Anjos, "não apenas capacidade de adaptação e engenho, mas igualmente acabamento tosco, fragilidade construtiva e, por vezes, risco de acidente ou de punição para quem a utiliza."   "Há implícita na gambiarra a noção de relativa intradutibilidade entre uma cultura local e uma cultura hegemônica, posto que os processos de troca dos quais deriva não resultam em sínteses, mas em construções opacas e inconclusas. A gambiarra é produto, então, de uma aproximação entre desiguais que não se completa nunca, expressando um ‘terceiro espaço’, de negociação agonística entre diferenças que não se mesuram", ainda nas palavras do curador. Dessa maneira, dentro desse contexto, o que se vê presente nos trabalhos exibidos são as questões de fragilidade, repetição, quebra de funcionalidade, organização/desorganização, acabamento/inacabamento e criações de estratégias. O Brasil refletido nas obras pode ser soturno, frágil, desconstruído, feito de repetições. "Um híbrido criativo e melancólico, que tem um sotaque contraditório", resume o curador.   Por exemplo, na obra A Mudança, de Marepe, um caminhão está preparado para carregar uma mudança. Mas, no espaço do museu, o caminhão é uma réplica de madeira, assim como os móveis e eletrodomésticos que ele carrega. Sua escala, como diz Moacir dos Anjos, fica entre a de um caminhão de verdade e a de um brinquedo, o que causa estranhamento e mais uma sensação de frustração porque tudo só parece, mas está "destituído de funcionalidade".   A obra de Marepe, sozinha, talvez não deixasse latente uma sensação de melancolia, como deixa agora aquele caminhãozinho parado na Grande Sala do MAM. Próximo dele estará também uma pessoa vestida de palhaço recostada à parede, obra de Laura Lima e, à frente, uma pintura de Delson Uchôa revela a vontade de representar de maneira física algo intangível como o céu e a terra.   O tótem de madeira e a parafernália de Paulo Nenflídio, no centro desse núcleo, dispara de uma hora para outra sons inesperados. Tudo isso para dizer que é no contato com o outro que se cria uma identidade, uma sensação. "Em vez de idéias de pertencimento que ignoram ou excluem o diferente, impõe-se uma noção que não somente o reconheça e o incorpore, mas que dele dependa para criar, desse contato que confunde conflito e troca, modos de representação próprios de um mundo sem fronteiras certas", define o curador.   Tanto que no próprio projeto expográfico limpo da arquiteta Marta Bogéa, a mostra se transformou em um conjunto de núcleos de trabalhos ligados por corredores. Não que sejam núcleos temáticos, mas encontros de obras de diferentes autores que, na relação com o outro, deixam latentes as questões presentes na proposta curatorial. "Quisemos criar fluidez. Tanto que não há o lá e cá (se referindo às ocupações da Grande Sala e da Sala Paulo Figueiredo do museu) e há artistas que têm obras nos dois espaços", diz o curador. O "ponto de respiro" dentro do trajeto é a sala feita para a projeção de Acidente, de Cao Guimarães e Pablo Lobato - a obra tem 70 minutos e é formada por 20 pequenos filmes.   Predomina nesse Panorama, enxuto, com pouco mais de 30 obras de artistas jovens e já em certa caminhada, o tom terroso, o tom da madeira, o tom do amarelo baixo, porque a sensação total é um pouco de tristeza. Bem, essa é uma possível visão de Brasil, assim como ela poderia ocorrer em qualquer área artística. Por isso mesmo, Moacir dos Anjos convidou o escritor Milton Hatoum a fazer um texto para o catálogo da mostra - ele ofereceu o conto inédito A Natureza Ri da Cultura - assim como o DJ Dolores fez mixagem que estará em CD encartado na publicação não apenas criada para ser registro da mostra (a obra será lançada em 22 de novembro).

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