MAM expõe seu calcanhar de Aquiles

Curadoria do 33º Panorama da Arte Brasileira usa caráter precário e polêmico da sede do museu como eixo temático

Maria Hirszman - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

03 de outubro de 2013 | 18h07

Desde 1969, o Panorama da Arte Brasileira é uma peça central e estratégica do Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, ajudando a sinalizar os rumos da instituição, contribuindo ativamente para a reconfiguração de seu acervo – depois da transferência da coleção inaugural para o Museu de Arte Contemporânea da USP em 1963. Agora, chegou a vez de a mostra servir para detonar um processo de reflexão sobre a própria e conturbada trajetória da instituição. Ao menos é essa a intenção da curadora Lisette Lagnado, que definiu como eixo de seu projeto para a 33.ª edição do Panorama a história e os desafios do museu, com ênfase em seu calcanhar de Aquiles: o caráter precário e polêmico de sua sede.

O belo pavilhão, construído em 1954 e cedido ao MAM em 1969 pela prefeitura, era, até hoje – após uma série de reformas – provisório. Ele enfrentou críticas do próprio Oscar Niemeyer, que o via como um apêndice indesejável, e fica aquém das necessidades do museu, sendo pequeno demais para contemplar todas as atividades. São claras as limitações no que se refere à reserva técnica, ao educativo e ao setor de pesquisa. Tentando trazer essas questões à tona, a curadoria do Panorama convidou sete escritórios e grupos de arquitetura (tais como Andrade Morettin Arquitetos; Gruposp; SPBR e Usina) para desenvolver com toda a liberdade novos projetos para o museu.

Esses planos, que vão desde a transferência do museu de volta ao centro da cidade (lá ele foi criado, nos anos 40) até a criação de uma estrutura suspensa gigantesca no próprio parque do Ibirapuera, compõem o esqueleto central da exposição e entram num interessante diálogo com outras três dimensões que se entremeiam na mostra: uma forte presença de material histórico e arquivístico; uma ousada experiência de resgate do projeto expositivo desenvolvido para o prédio por Lina Bo Bardi em 1983; e uma série de obras contemporâneas que colocam em discussão aspectos relativos à museologia, memória, colecionismo ou ainda obras-chave da história do museu.

Ao todo, são 32 artistas, arquitetos e fotógrafos colocados em diálogo num espaço surpreendentemente amplo, como propunha Lina, que queria o painel para o Parque e as paredes, pintadas em tons do azul ao cinza, totalmente livres. Esta regra foi apenas parcialmente respeitada, já que parte do material relativo ao museu e aos seus congêneres – há também referências aos MAM do Rio e de Salvador – utilizam esse suporte. Além disso, uma das paredes dá lugar à sutil intervenção do artista cearense Vitor Cesar, que a refez usando técnicas mais precárias e artesanais, numa remissão ao caráter precário e singelo da construção popular.

A inexistência de divisórias tornou mais complexa a disposição dos trabalhos, determinando uma opção por obras que dessem conta do espaço. Uma das belas soluções encontradas foi a adoção de grandes cortinas de correntes coloridas, com passagens recortadas, do artista espanhol radicado no Brasil, Daniel Steegmann Mangrané, que pontuam, animam e ajudam a organizar o espaço.

O tema dos painéis é retomado de forma totalmente distinta (enquanto o primeiro se impõe pela cor e transparência, o segundo remete à noção de blindagem) na obra Crítica dos Ativos Intangíveis ou Barragem, de Clara Ianni, composta por uma série de divisórias movíveis em zinco, instalada na pequena sala do museu. Esse espaço também abriga o principal homenageado da exposição, o artista pernambucano Montez Magno, representado por um conjunto de 19 trabalhos realizados a partir de 1960.

A fotografia tem presença garantida na mostra, com trabalhos de autores como Marcel Gautherot e Mauro Restiffe. Realizador de diversos trabalhos relacionados à arquitetura como símbolo de poder, Restiffe agora exibe uma série inédita feita no funeral de Oscar Niemeyer. São imagens simbólicas que ganham destaque numa exposição que pretende provocar o debate sobre a história e o futuro do museu e uma maior interação entre os núcleos estanques da arte e da arquitetura. Com esse intuito o Panorama organizou também debates e apresentações, além da feliz coincidência de calendário com a programação intensa e com vários pontos de afinidade da Bienal de Arquitetura.

 

Uma discussão latente e necessária

Curadora da 27ª Bienal de São Paulo em 2006, Lisette Lagnado foi convidada há cerca de um ano a assumir a 33ª edição do Panorama do MAM e partiu do princípio de que a discussão em torno da sede do museu era latente e necessária. Com a ajuda da curadora adjunta, Ana Maria Maia – que fez parte da equipe curatorial da 29ª Bienal – procurou combinar trabalhos artísticos, arquitetônicos e documentais existentes com uma quantidade importante de novos trabalhos comissionados com o intuito de contribuir para uma maior reflexão sobre o papel do museu e seu lugar na cidade de São Paulo.

 

PANORAMA MAM

MAM. Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, Pq. do Ibirapuera, portão 3, 5085-1300. 3ª a dom., 10 h/ 17h30. Grátis. Até 15/12. Abertura sábado, 12 h. http://www.mam.org.br/

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