MAM abre mostra sobre Geração 80

Poderia haver momento mais propício para celebrar os anos 80 nas artes plásticas nacionais? Se estamos prestes a alcançar a marca de 20 anos desde a mais emblemática das exposições da época (Como Vai Você, Geração 80?, em julho de 1984) ao mesmo tempo nos aproximamos da distância exata de duas décadas de outro evento-ícone daquele período, as Diretas Já. Para completar, estamos em janeiro, mês intimamente ligado ao movimento que exigia o direito de voto - dia 25 de janeiro de 84 ocorreu o histórico comício que reuniu cerca de 300 mil pessoas na Praça da Sé. Atento ao atual momento de reivindicação de participação popular por que passa o País, o Museu de Arte Moderna de São Paulo resolveu franquear ao público a decisão sobre os rumos do mais importante evento da instituição neste primeiro semestre. A exposição 2080, que será inaugurada hoje, teve sua curadoria compartilhada entre Felipe Chaimovich e o setor Educativo do museu, coordenado por Vera Barros e Carlos Barmak. Eles se basearam nos conceitos levantados por quatro exposições que marcaram a década: Pintura como Meio (83), Como Vai Você, Geração 80?(84), Grande Tela (na 18.ª Bienal, 85) e Imagens de Segunda Geração (87). 2080 não é uma remontagem e suas obras não coincidem com as das mostras originárias. Também em sintonia com a atitude do atual governo de ouvir a sociedade, o MAM-SP vai reconfigurar a exposição de acordo com as demandas do público. As 49 obras de 2080 foram distribuídas sobre 43 grandes painéis de madeira modulares (3 m x 3 m cada um) e móveis. Dentro do museu, os visitantes serão convidados pelos arte-educadores a participar de jogos de conhecimento centrados nos anos 80, emitindo suas impressões sobre a exposição. A cada 15 dias, curadores do museu, educadores e o arquiteto da montagem, Pedro Mendes da Rocha, reúnem-se para interpretar os resultados dos jogos e remontar tudo. Nas manhãs de terça, 2080 reabre com nova configuração. Não há regras preestabelecidas e as mudanças podem obedecer tanto a critérios formais e cromáticos quanto de gosto pessoal do visitante. "As remontagens serão a prova de que a resposta do público vai transformar a curadoria. O cidadão pode reinterpretar a história dos anos 80 e se reapropriar de sua produção artística", afirma Chaimovich. Mal comparando - e insistindo na analogia política -, a atitude de Chaimovich lembra a do ex-presidente Figueiredo no início daquela década, deixando a abertura política correr solta e se preparando para estrategicamente retirar o time de campo (foi ele quem sancionou a anistia e restabeleceu o pluripartidarismo). Inovação - Chaimovich inova ao abdicar de parte de seu poder para compartilhá-lo com o setor Educativo do MAM, um dos mais atuantes entre os museus do país. Pelas mãos de um curador, a exposição 2080 anunciaria o fim da "era dos curadores" e o início da "era dos arte-educadores"? Nos 80, não era incomum os próprios artistas organizarem suas exposições ou então apresentarem projetos de mostras diretamente à direção dos museus, sem a bênção de um curador. Alguns assumiam dupla função, caso de Sérgio Romagnolo que, inspirado por Regina Silveira e Julio Plaza, seus professores-artistas na Faap, abraçou a curadoria. Ele idealizou Pura Arte, em 89, no MAC paulistano, e Arte Híbrida, em 89, no MAM-SP, entre outras. Romagnolo é o curador de A Estética do Fluido, em cartaz no MAM Villa-Lobos. Apesar dessa tendência de autogestão, a década de 80 é lembrada pela ascensão da figura do curador - que nos 90 iria consolidar seus superpoderes, de par com o aumento no número de "exposições assinadas", no Brasil e no mundo. No meio do espaço expositivo foi construída uma arquibancada de madeira onde terão lugar os fóruns de debate entre os visitantes e os arte-educadores. "Em geral, uma exposição convencional é um jogo fechado", compara Vera Barros. "Essa mostra será como o jogo da democracia, sempre aberto a mudanças", completa Carlos Barmak, lembrando que as regras serão criadas pelos próprios participantes, no decorrer da exposição. "A idéia de aproximar o setor educativo da curadoria era um antigo projeto do MAM", conta a curadora-executiva Rejane Cintrão, que trabalha no museu há dez anos, mas que esteve envolvida com exposições-chave dos 80, como Pintura como Meio e Grande Tela. Sábia decisão, uma vez que, se os 80 foram múltiplos em sua inventividade plástica, variadas e infinitas devem ser as formas de, hoje, olharmos para ela. Um dos maiores equívocos é tratar os artistas daquela década como um grupo inclinado a propostas coincidentes (a tal "geração 80", que nunca existiu de fato). Nesse sentido, impor uma leitura imutável seria tentar encontrar continuidade e coesão numa história marcada pela fragmentação e precariedade. Para efeitos didáticos, o período é conhecido como o da retomada da pintura, uma reação às vertentes conceituais dos anos 70. Os artistas voltaram-se para uma arte não-programática, com ênfase no fazer, ou seja: pesquisa de novos materiais e inovação das técnicas pictóricas. Na opinião do curador, o maior legado dos 80 foi ter rompido com a possível exclusão de alguma mídia das possibilidades da produção. "Desde os anos 60, a pintura vinha sendo sistematicamente questionada e, nos 70, já estava excluída, pejorativamente associada aos que a praticavam", explica ele. Chaimovich lembra ainda o fato de a década de 80 ter formado a maioria dos educadores que hoje atuam na formação de novas gerações de artistas contemporâneos brasileiros. "Bastaria isso para formar o sentido mais profundo de uma escola." Cores new wave - A mostra 2080 está dividida em quatro núcleos, de acordo com as exposições históricas dos 80. Cada um deles é sinalizado por uma cor: rosa, laranja, verde e amarelo, todas fluorescentes, em referência ao padrão new wave da década. O módulo Suporte da Pintura se refere à coletiva Pintura como Meio, em 83, no MAC de São Paulo, que buscava novos sentidos para o clichê de "volta à pintura". Aracy Amaral, diretora do museu na época, inovou e surpreendeu o establishment ao aceitar a proposta do jovem artista Sérgio Romagnolo, então aluno da Faap, e obras sem chassis. A mostra reunia trabalhos de Romagnolo, Leda Catunda, Sergio Niculitcheff, Ciro Cozzolino e Ana Tavares. Anarquia e Prazer dialoga com a histórica Como Vai Você, Geração 80?, no Parque Lage do Rio, em 84, curada por Marcus Lontra, Paulo Leal e Sandra Mager, que propunham uma ruptura com a história tradicional da arte. Neste núcleo, 2080 exibe obras de Beatriz Milhazes, Daniel Senise, Luiz Pizarro, Leonilson e outros. Neo-Expressionismo, com telas de Carlito Carvalhosa, Fábio Miguez e Nuno Ramos, remete à Grande Tela de Sheila Leirner na 18.ª Bienal, em 85, que apontava semelhanças da pintura gestual brasileira com as tendências internacionais. Citacionismo (com Alex Flemming, Iran do Espírito Santo e outros) conversa com Imagens de Segunda Geração, curadoria de Tadeu Chiarelli para o MAC, em 87, sobre o repertório pop de certa produção nacional, extraído dos meios de comunicação de massa, no momento em que a globalização se acelerava. 2080. De terça, quarta e sexta, das 12 às 18 horas; quinta, das 12 às 22 horas; sábado, domingo e feriados, das 10 às 18 horas. R$ 5,00. MAM. Avenida Pedro Álvares Cabral, s/n.º, Parque do Ibirapuera, portões 2 e 3, tel. 5549-9688. Até 5/4. Abertura hoje, às 19h30

Agencia Estado,

23 de janeiro de 2003 | 10h12

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