Mallmann faz ficção com humor e horror

Em A Metamorfose, a mais célebre narrativa do checo Franz Kafka, um homem, Gregor Samsa, amanhece certo dia transformado, para sempre, em um inseto. Em O Crocodilo, novela inacabada do russo Fiodor Dostoiévski, um funcionário da burocracia, Ivan Matviéitch, é engolido, em plena Passagem de Petersburgo, por um crocodilo, dentro do qual se acostuma a viver. Neste Síndrome de Quimera, terceiro livro do quase desconhecido escritor gaúcho Max Mallmann, na mesma sucessão de fatos perturbadores envolvendo a simbiose entre homens e animais, um jovem, Viktor, invertendo o papel de vítima para o de devorador, carrega uma serpente viva dentro de si, enredada ao coração, e está condenado a conviver com seus humores ofídicos. Viktor tem um grande amigo, Bruno, seu sócio no café-livraria A Quimera que, numa operação contrária, é capaz de destampar a cabeça, arrancar o cérebro de dentro de si e deixá-lo descansando dentro de uma bacia para, assim, durante algum tempo, se aliviar da carga que é pensar. Viktor e Bruno não são, contudo, personagens de exceção dentro da sedutora novela de Mallmann. Síndrome de Quimera é um livro no qual a imaginação, com toda a camada de distorções, afecções e ciladas que costuma engendrar, é a grande personagem. Quanto mais o leitor se surpreende com os tipos que Mallmann lhe oferece, mais deve estar preparado para novas surpresas, numa sucessão atordoante de fantasias radicais. Há uma moça, Cyan, que tem uma pele de papel e, em conseqüência, só se alimenta de livros. Um sujeito de cabelos crespos desgrenhados que, movido a bateria, precisa se realimentar de tempos em tempos colocando o dedo num soquete de luz. E por fim Falena, a moça por quem Viktor se apaixona, cujos olhos brilham no escuro como dois vaga-lumes e que, criada numa família que sempre cultivou o hábito de nada jogar fora, vive numa casa intransitável, atulhada de trastes. Sem regras - É de fato uma alegria descobrir um escritor como Max Mallmann, 32 anos, roteirista da TV Globo no Rio de Janeiro que, sem a pose de desbravador solitário que costuma vir estampada na face de muitos autores estreantes, esquece-se de si para se entregar, com um atrevimento notável, ao prazer da imaginação. O mundo de Mallmann é, como todo universo em que as fantasias predominam, absolutamente disperso, arbitrário e, por fim, destinado ao malogro. Seus personagens, e o turbilhão de acontecimentos em que estão metidos, não seguem quaisquer das regras cotidianas, não correspondem a nenhuma das expectativas impostas pela vida real. E, como em Kafka, se tudo parece absurdo, parece também muito engraçado - e, de fato, muitos críticos, de prestígio, lêem Kafka como um grande humorista. Nos dois casos, do inigualável Kafka e do estreante Mallmann, esta é, contudo, uma leitura verdadeira, mas limitada. A literatura que merece este nome, em vez de se nivelar aos procedimentos da reprodução naturalista, age, ao contrário, como uma máquina infernal (podemos pensar em Pessoa, em Sade, em Checov) que usa a palavra para neutralizar nossas certezas, para nos deter em engenhos desconhecidos e ardis e até, contanto que isso permaneça nos limites geográficos das páginas impressas, para nos enlouquecer um pouco. Então, é com muitas risadas, mas também com grande perturbação, que avançamos na leitura deste Síndrome de Quimera, um livro astucioso, raro no destempero de idéias, mais raro ainda pela extensa liberdade que Max Mallmann se permite e, em conseqüência, é capaz de oferecer a seu leitor. Como ressalva Cristóvão Tezza em seu texto de apresentação, a família, o desejo, a imortalidade, o inferno forçam, por detrás das risadas inevitáveis, a lucidez de quem o lê. Como quem não quer nada, entre risos, paródias e lances de puro jogo, Mallmann nos abre uma visão radical do mundo, território no qual, de fato, tudo pode acontecer, não fosse nossa vocação para a melancolia disfarçada em pose e para o temor dissimulado em equilíbrio. Um espelho, sim, mas sem qualquer ilusão de sinceridade; ao contrário, como esses espelhos traiçoeiros dos parques de diversão que, ao nos acolher, nos distorcem - e, no entanto, ainda somos nós que estamos ali. Mallmann não parece ter medo nem de errar, nem de exagerar, nem de não ser lido como deseja; graças a esta postura, nos transporta num verdadeiro roldão, seguindo as aventuras de Viktor a fugir do Megasminto, um homem rato devorador de gente, a se ver enredado na frieza calculista de Semper Fidelis (assessor de um improvável e ridículo Senhor das Inclemências) e, assim, a descobrir verdades insuportáveis a respeito do próprio passado. Ao terminar a leitura, somos tomados pela sensação reconfortante de ter escapado de um sonho, mundo distante e bizarro que, no entanto, nos leva a pensar sobre o ser ausente e esquisito que tantas vezes também somos.

Agencia Estado,

09 de dezembro de 2000 | 20h21

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