Malick tece uma sinfonia filosófica

A Árvore da Vida tenta tornar palpável o ''mistério'' de Deus e acaba sendo uma rara experiência audiovisual

Luiz Carlos Merten / CANNES, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2011 | 00h00

Terrence Malick trouxe seu grande circo místico ao maior festival de cinema do mundo - finalmente. A Árvore da Vida já havia sido uma das atrações anunciadas de Cannes no ano passado, mas "Terry", como o chamam os integrantes da equipe, ainda não estava satisfeito com o resultado, leia-se a montagem. Entre os cinco montadores creditados de The Tree of Life está o brasileiro Daniel Rezende, que trabalhou com Fernando Meirelles em Cidade de Deus e com José Padilha em Tropa de Elite 2.

Havia uma imensa expectativa pelo filme. Ele foi assistido em contemplação, quase como uma experiência espiritualista. No fim, surpreendentemente, vaias. Os aplausos demoraram um pouco e nem foram tão caudalosos. Dizer que o filme é bonito não dá conta de sua complexidade. Trata-se de uma rara experiência audiovisual. As imagens são de cortar o fôlego - imagens da natureza, que tentam tornar palpável o "mistério". De Deus (e da graça).

A Árvore da Vida acompanha uma família. Pai, mãe e três filhos. Brad Pitt e Jessica Chastain formam o casal. Um dos filhos morre logo no começo e lança a mãe num lamento fúnebre que se prolonga por quase um terço da duração de duas horas e 18 minutos.

A mãe se indaga sobre o sentido da sua perda, sobre a crueldade de Deus. O filho revoltado - que vira Sean Penn quando adulto - recusa-se a ser bom porque o próprio Deus não o é. Ele é bem um produto da educação dura que recebeu do pai.

Especulações. Malick não quis contar uma história, no sentido tradicional. Ele tece mais uma sinfonia filosófica - metafísica? Mas a verdade é que, por mais impressionante que seja A Árvore da Vida, a sensação é de um Stanley Kubrick de segunda mão. A relação do macro e do micro universo vem de 2001, Uma Odisseia no Espaço. Na coletiva do júri, o presidente Robert De Niro disse que pretende premiar filmes, não autores. Malick virou mito - e o fato de não ter participado da coletiva (ele é tímido, garante sua produtora) apenas alimenta as especulações sobre sua personalidade. Premiado com a Palma de Ouro de melhor diretor no Festival de Cannes em 1978 por Cinzas no Paraíso (Days of Heaven), Malick também dirigiu Terra de Ninguém (1973), Além da Linha Vermelha (1998) e O Novo Mundo (2005). Depois de um grande filme popular (O Artista, de Michel Hazanavicius, no domingo), Cannes propôs ontem um grande filme "artístico". Malick é muito autoconsciente de sua arte, mas é curioso, parece um artesão onde Kubrick foi o visionário, há mais de 40 anos.

Brad Pitt, de qualquer maneira, está encantado com ele. Trabalhar com um diretor tão especial, segundo o marido de Angelina Jolie, cria um padrão de exigência que ele acha que terá desdobramentos em sua carreira. Por falar em Angelina, ela está em Cannes com o marido - e a trupe que veio apresentar Kung Fu Panda 2. A futura Cleópatra aproveitou sua estada na Croisette para anunciar a sua estreia na direção. O filme vai chamar-se In the Land of Blood and Money e tem estreia prometida para dezembro.

NA CROISETTE

O festival exibiu ontem a versão restaurada do clássico Viagem à Lua, de Georges Méliès, de 1902, considerado o filme que introduziu o maravilhoso no cinema, mostrando que o invento que os próprios irmãos Lumière definiam como "sem futuro" podia ser ótimo instrumento para contar histórias. A restauração recupera as cores originais, que Méliès havia obtido trabalhando diretamente sobre a película.

Bruno Dumont está em Un Certain Regard com seu novo Hors Satan. O próprio diretor artístico do evento, Thierry Fremaux, fez a apresentação, chamando Dumont de "imenso cineasta". David Dewaele faz um tipo estranho, que opera milagres numa pequena cidade. O autor, que sempre busca a graça em seu cinema, desta vez trabalha com o milagre da ressurreição, numa via que vai de A Palavra, de Carl T. Dreyer, ao brasileiro Não se Pode Viver sem Amor, de Jorge Duran.

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