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Males da nossa desordem

Hoje é sexta-feira, mas para mim ainda é terça: o prazo fatal para enviar esta crônica ao Caderno 2. Vivo no tempo do jornalismo impresso, um tempo lento, se comparado com o da mídia eletrônica. Mas não tão lento como o ritmo da seleção brasileira.

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2014 | 02h06

No jogo contra o Chile, jorraram lágrimas antes e depois dos pênaltis. Por que a choradeira incomodou tanta gente? Até os suíços choraram. Alemães ou franceses vão chorar: uns de alegria, outros de tristeza. Verissimo, com o humor e a exatidão de sempre, escreveu que a disputa por pênaltis deveria ser proibida pela Convenção de Genebra. Essa disputa pode ser fatal para os cardiopatas e hipertensos, pode fazer estragos sentimentais em torcedores saudáveis, pode causar arritmia nos corações de aço, ou até mesmo no peito frio de um desalmado.

O mais inquietante foi a letargia durante 120 minutos de um jogo em que uma das traves, o travessão e Júlio César foram os grandes protagonistas. Vimos um time anêmico, sem tática, sem criatividade, sem ímpeto. O meio de campo é um território de desacertos e hesitações, um lugar que durante a maior parte do jogo se torna um pequeno deserto verde, tristíssimo. Neymar parece reviver os piores momentos do Santos, quando o craque se rebolava para fazer tudo, mas nem Pelé era onipresente, ninguém numa equipe pode ser tudo nem fazer tudo.

O treinador da seleção está mal assessorado; a família Scolari parece insegura e desestruturada. Os filhos se reúnem com o pai em almoços semanais, mas pai e filhos falam línguas diferentes e estranhas, e ninguém se entende. Essa é a impressão que muitos de nós, meros torcedores, temos dos jogadores da nossa seleção dentro do campo. E o que fazem fora de campo, na suntuosa Granja Comary? Quando assistimos aos jogos da Holanda, da Alemanha e da Argentina, percebemos um desenho tático e uma concepção de jogo. Mesmo a Argentina, que depende muito de Messi, mostra uma garra, uma desesperada vontade de vencer, que faz jus ao canto ininterrupto de sua torcida, bem mais vibrante que a nossa. Noto que há vontade e garra na atuação de David Luiz, Neymar, Júlio César, Marcelo e de outros poucos. Mas jogam numa equipe desafinada, sem ritmo, ao deus-dará. Não adianta rezar: todas as preces do mundo não garantem a multiplicação de gols. Até o papa, um santo torcedor argentino, deve perguntar, com humildade franciscana:

Che, por que Hernanes e Maicon continuam no banco de reservas?

Um coro de milhões de brasileiros responde ao santo padre: Porque nossa comissão técnica é teimosa. E nada é possível contra a teimosia, que é um subproduto tosco da vaidade.

O jornal Le Monde publicou recentemente uma matéria, cujo título mencionava "a improvisação à brasileira". Referia-se à organização da Copa, ou à desorganização que, até agora, garantiu o bom andamento dos jogos e a realização da festa do futebol. No fundo, trata-se da desordem brasileira, cujas raízes são históricas, como tão bem demonstrou Sérgio Buarque de Holanda num livro clássico. Mas falta à nossa seleção outros tipos de improvisação: a criatividade e o desconcerto de jogadas imprevisíveis. Falta orientação aos jogadores: envolvimento total durante a partida, uma ocupação inteligente do campo, um estudo minucioso da equipe adversária. Falta, enfim, um maestro para essa orquestra fragmentada, desencontrada, fora de tom.

Tomara que o coro de milhões esteja totalmente errado. E com ou sem ajuda da trave, oxalá a seleção brasileira vença hoje à tarde os outros amarelos, que vão jogar com muita garra e provavelmente com bom futebol.

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