Maldito e fabuloso

Surgido em 1972, o ano em que a MPB virou do avesso, o 1º disco de Jards Macalé é relançado para provar que o sujeito não estava para brincadeira

Rômulo Fróes, O Estado de S.Paulo

14 Julho 2012 | 03h08

O ano de 1972 é especial para a música brasileira. Alguns dos discos lançados naquele ano não só se destacam na carreira dos artistas que os lançaram como se tornaram fundamentais para a construção da história da música popular brasileira. A lista impressiona: Expresso 2222, de Gilberto Gil; Clube da Esquina, de Milton Nascimento e Lô Borges; A Dança da Solidão, de Paulinho da Viola; Acabou Chorare, dos Novos Baianos. Isso pra ficar em alguns. Outro grande disco de 72 é relançado agora em seu formato original pela Polysom, dentro da coleção Clássicos em Vinil. Trata-se de Jards Macalé, o primeiro disco, homônimo, de Jards Macalé.

Macalé, que dois anos antes, em 1970, havia lançado o compacto Só Morto (Burning Night), estava no centro das mais importantes experimentações artísticas daquele período. É dele a direção musical de um dos discos mais importantes de Gal Costa, Legal (1970). Gal, que um ano mais tarde voltaria a gravá-lo no antológico Fa-Tal - Gal a Todo Vapor, disco que acabaria por imortalizar Vapor Barato (Jards Macalé/Waly Salomão), o maior sucesso do compositor. Mas principalmente, ainda em 72, Macalé assina a direção musical daquele que para muitos é o melhor disco de Caetano, Transa.

Pode-se dizer que Transa e Jards Macalé foram os primeiros trabalhos que chegaram mais próximo de algo que podemos identificar como rock brasileiro. É claro que a Tropicália e antes a Jovem Guarda haviam se apropriado do ritmo, mas nestes discos a influência do rock vai além de sua apropriação. Eles transformam o rock em música brasileira. Macalé é fundamental nessa transformação.

Antes de mais nada, é preciso dizer que Jards Macalé é um disco de banda. Um poderoso power trio, formado por Tutty Moreno (bateria), Lanny Gordin (baixo e violão de aço) e Jards Macalé (violão). Logo na abertura o som do trio se impõe. Farinha do Desprezo (Jards Macalé/Capinam) parte de uma convenção executada pelo baixo e pelos violões, mas só parcialmente acompanhada pela bateria, provocando uma tensão rítmica que faz seu andamento flutuar.

A canção se equilibra sobre acidentes rítmicos fazendo estender sua melodia a fim de manter sua integridade. Estrutura semelhante, mas ainda mais radical, se repete em Let's Play That (Jards Macalé/Torquato Neto). A canção é desconstruída a ponto de, no fim, não reconhecermos mais sua forma original. O disco é organizado por esse movimento de concentração e dispersão, alternando-se entre euforia e contenção. Comportamento parecido com Transa. Mas se ali as mudanças de intenção são comandadas pela letra e pelas citações de Caetano, no disco de Macalé seu violão é que guia essas oscilações.

Um dos mais originais da música brasileira, ele é ao mesmo tempo, refinado, basta ver suas harmonias, e tosco, pelo jeito propositalmente desleixado de tocar. Entre o virtuosismo de Turíbio Santos, de quem foi aluno, e o som rude do violão beliscado de Nelson Cavaquinho, influência declarada de Macalé.

Sua imaginação musical incomum é responsável também por um capítulo importante no que se refere a letra de canção. No momento em que a motivação para compor se resumia à discussão ideológica entre a música engajada e a de mercado, Macalé e seus parceiros, em especial Capinam, Torquato e Waly, produziram uma lírica difícil de ser definida. Ao mesmo tempo, inventiva, transgressora, contundente, libertária, irônica, política e porque não dizer, poética. Macalé podia tanto cantar a violência dos versos de Revendo Amigos (Jards Macalé / Waly Salomão), "(...) se me der na veneta eu mato, se me der na veneta eu morro e volto pra curtir", quanto o desencanto de Movimento dos Barcos (Jards Macalé/Capinam), "Tô cansado e você também, vou sair sem abrir a porta e não voltar nunca mais".

Artista inclassificável, Jards Macalé ocuparia um lugar desconfortável dentro da MPB, então já estabelecida como gênero. Não convém aqui destacar os motivos que contribuíram para isso. Este disco relançado agora determinou seu temperamento artístico e o modo como construiu sua obra musical. Definitivamente, uma das mais importantes e influentes da música popular brasileira. Temos a chance de ouvi-lo novamente. Let's play that!  

RÔMULO FRÓES É CANTOR E COMPOSITOR

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