Malandro e mané, com humor

Os Penetras desponta para ser o maior sucesso brasileiro do ano

O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2012 | 02h09

Nove entre dez críticos - talvez 11 entre 10 - vão dizer que a bilheteria não significa nada (em termos de qualidade artística), mas Os Penetras, vale registrar, teve a melhor abertura do ano e, em 316 salas, foi visto por mais de 350 mil espectadores somente no fim de semana. Somando segunda e terça-feira, o filme chegou a 481 mil pagantes. Nem Até Que a Sorte nos Separe, campeão do ano, com mais de 3 milhões de espectadores, registrou números tão expressivos para o cinema brasileiro em 2012.

A expectativa é de que Os Penetras chegue a 3,5 (ou 4) milhões de público. Antes que você torça o nariz - e daí? -, não seja como o 'crítico' que chamou essa gente toda de 'simplória', acrescentando que o filme de Andrucha Waddington esgota o receituário das fórmulas televisivas.

Marcelo Adnet e Eduardo Sterblitch, que fazem os penetras, trafegam pela TV, mas Andrucha Waddington, não. Pela publicidade, talvez, mas em Casa de Areia ele fez um filme, pelo tempo, pelo espaço, que seu lado publicitário teria todas as condições de odiar. Os Penetras é humor de TV? A questão está aberta e merece discussão. Hoje em dia, no País, há um questionamento dos blockbusters e uma defesa da invenção. Ótimo, a Semana dos Realizadores está aí para celebrar outro tipo de cinema (e traz grandes filmes). Mas criticar a mesmice com argumentos que são sempre os mesmos - simplórios? -, também não dá.

Se há uma referência em Os Penetras, não é nenhum programa de TV, mas um marco da comédia de costumes no cinema do País - Os Paqueras, de Reginaldo Faria, de 1968. Os Paqueras iniciou uma onda de humor que, eventualmente, levou à pornochanchada, mas isso não tira o mérito do filme. Os Penetras retoma personagens conhecidos do público - e do cinema. Malandro é malandro, mané é mané, como não se cansa de cantar Diogo Nogueira. O malandro Adnet quer tirar proveito do mané Sterblitch, mas os dois terminam ligados. OK, você não precisa gostar, mas vai ser difícil negar qualidade a pelo menos uma cena - o reencontro com a ex-mulher do mané, Andréa Beltrão, numa participação nota 10.

Os Penetras é um filme que já tem quase dez anos no imaginário do diretor. "A história surgiu em 2005, mas ficou adormecida toda este tempo porque surgiu o Lope, que consumiu quatro anos de minha vida. Somente depois de encerrado o capítulo Lope pude voltar a pensarem Os Penetras", explica Andrucha.

Inicialmente, o filme seria com Selton Mello, mas na retomada do projeto Andrucha escreveu outro roteiro (com Marcelo Vindicato). Marcelo Adnet, que não é nenhum estreante, ganhou o papel de protagonista, Eduardo Sterblitch foi escolhido para formar dupla com ele e tudo isso foi decidido por meio de leituras de mesa que afinaram os protagonistas (e os diálogos).

"As leituras de mesa duraram cerca de três meses", conta o diretor. "Como os dois são bons de improviso, surgiram muitas deixas que foram incorporadas ao roteiro. Filmei o roteiro, mas sempre houve espaço para que eles improvisassem frente às câmeras, também."

Não necessariamente por haver feito Lope na Espanha, Andrucha considera a palavra espanhola para roteiro perfeita - guión. "O roteiro é um guia do qual a gente pode se afastar, dependendo das condições de momento. Às vezes, o próprio set pede outra coisa e o diretor tem de estar preparado para isso." Ele acrescenta que Adnet sempre foi o eixo em torno do qual se estruturou a nova versão de Os Penetras - diferente, com certeza, do que o filme teria sido há sete anos. "O Eduardo foi uma ideia do diretor de fotografia Ricardo della Rosa. Ele havia gostado muito de uma entrevista do Eduardo no Jô (Soares) e me disse - 'Dá uma olhada.' Não só olhei, como gostei, bateu uma boa química com o Marcelo e o restante do elenco foi sendo montado em torno dos dois."

Depois de dois dramas, Casa de Areia e Lope, Os Penetras pode ser considerado uma inesperada mudança de rumo para o diretor. Andrucha estaria se rendendo à facilidade do mercado, em que as comédias reinam soberanas. Ele próprio reconhece que é uma falácia - as maiores bilheterias do cinema brasileiro recente são de dramas, e o campeão de todos os tempos é o poderoso Tropa de Elite 2, de José Padilha.

"Se você prestar atenção, Gêmeas é um suspense, Eu Tu Eles é um drama cômico e só Casa de Areia é um drama mesmo. Lope tem muitas aventuras. Todos os meus filmes são bem diferentes e eu pretendo continuar assim. Gosto de personagens, de histórias. O gênero e o estilo são decorrências."

O assunto cinema surge com naturalidade na avaliação do diretor - "O filme, qualquer filme, tem de ser benfeito e ter orçamento. Sem dinheiro não se faz cinema de qualidade. Tropa de Elite, 1 e 2, têm ambos. Não creio, como muita gente pensa, que o público seja burro. Ele pode ter sido formado pela TV, mas isso não é defeito, principalmente no Brasil, onde a telenovela criou uma dramaturgia de qualidade reconhecida, e que dialoga com as pessoas. Não vou ficar discutindo se o filme é TV, porque não é. Mostrei muita comédia italiana para o elenco para definir o tipo de humor que queria."

E as mulheres? Andréa Beltrão excede num papel que Fernanda Torres, mulher de Andrucha, também faria com extrema desenvoltura. Mariana Ximenes é marilyniana, numa personagem ambivalente (antes que as coisas se esclareçam). "Ela é ótima, estou muito feliz com todo o meu elenco." / L.C.M.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.