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Malandragem

Os maiores abusos só escandalizam quando envolvem pessoas conhecidas

Roberto DaMatta, O Estado de S. Paulo

12 Dezembro 2018 | 02h00

Tio Mário dizia o seguinte: na psicanálise você revela ao analista o que não tem coragem de contar a um padre!

Eu tinha 15 anos. O cinema e os amigos já me haviam apresentado aos mistérios proibidos de Freud, mas como eu bem sabia o que era uma confissão, guardei como um trauma aquela aguda observação de um dos meus tios mais amados.

Hoje, vejo a sabedoria da sua intuição. Em qualquer confidência, quanto mais o fato confessado é temido a ponto da negação, mais se precisa de coragem para entrar nos seus detalhes. A meticulosidade, sobretudo quando o revelado causa vergonha, é o que conduz ao perdão e à autoaceitação. Acusar-se a si mesmo é um ato de extraordinário heroísmo. 

As delações premiadas provam como o diabo mora nos detalhes. A interpretação dos malfeitos não depende da letra ou dos mandamentos. Ela reside nas circunstâncias em que foram realizados. São as situações planejadas ou imprevistas que permitem agir com a velha ética de condescendência que tudo nega; ou com a isenção da justiça que condena ou perdoa. 

*

Na sexta-feira, havia um fenômeno numa igreja. Na fila do confessionário do padre Geraldo, havia uma multidão; na do padre Alberto, ninguém. Era simples explicar esse desequilíbrio de pecadores. Tal como o nosso descontrole fiscal, o padre Geraldo achava normal nossa abusiva inflação contra a castidade, já o padre Alberto punia severamente.

Fui salvo pelo Maurício. 

– Primeiro, disse, jamais caia na besteira de se confessar com o padre Alberto; depois, use a malandragem... 

– Qual?

– Não entre em detalhes. Diga apenas que pecou contra a castidade por pensamentos, palavras e obras.

*

A malandragem tem uma dimensão geral – tipo: eu faço porque todos fazem, é o costume. No caso deste Brasil mais ou menos perdido em si mesmo, existe a premissa de que o público não é de ninguém e, por isso mesmo, pode (e deve!) ser apropriado por quem o controla. A malandragem nada mais é do que a transformação do impessoal (o que é de todos) em algo invisível. É incrível descobrir que os maiores abusos só escandalizam quando envolvem pessoas conhecidas. 

Essa inocência universal tem sido o que tanto permitiu a convivência pacífica (e malandra) entre senhores e escravos; e opressores e oprimidos por meio do Estado – esse representante de uma irracional impessoalidade. Caso fora do comum porque, em todos os lugares onde surgiu a ganância burguesa, o Estado a controlou, mas, entre nós, a cobiça está na apropriação do Estado como um meio de generalizar e de malandramente colocar a culpa em figuras jurídicas tão imutáveis quanto as leis, a economia e os governantes – sem falar ou tocar no mecanismo que expropria e, ao mesmo tempo – vejam o tamanho da malandragem – impede o remédio porque não se pode viver sem governo.

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Ser malandro é usar a lei ao pé da letra, tal como foi ensinado. Por outro lado, a malandragem nacional é não entrar nos detalhes. Seu axioma principal, conforme se sabe, é “como tirar vantagem de tudo”, inclusive da lei. Porque de acordo com ela, “tudo foi feito dentro da lei” até que apareçam os detalhes. 

*

Em Carnavais, Malandros e Heróis estudei a malandragem e mostrei como Pedro Malasartes batalhava com os “caxias” e os renunciadores. Vivemos num país desesperado por heróis. Outro dia, um amigo sugeriu que eu deveria republicá-lo com o título de Carnavais e Malandros. Sem nenhum herói, o tomo seria – quem sabe? – um best-seller e um retrato fiel do Brasil.

Essa pátria na qual todas as formas de dominação – burocracia, patrimonialismo e carisma – se interligam e se anulam por uma recorrente e malandra malandragem. 

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