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Mal-estar da incivilidade

O poder de Trump não é o de intimidar ou despertar medo, é provocar fadiga, diz professor

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

23 de julho de 2018 | 02h00

“Estamos vivendo uma emergência nacional,” declarou o respeitado historiador da presidência americana Michael Beschloss, ao final daquela coletiva surrealista em Helsinki. “Este foi talvez o mais vergonhoso desempenho de um presidente dos Estados Unidos ,” disse o principal âncora da CNN, Anderson Cooper.

A semana que pareceu durar um ano terminou com vários comentaristas na mídia americana se debruçando sobre a “Trump derangement syndrome” (TDS), explicada pelo sempre atualizado Urban Dictionary (Dicionário Urbano). “Síndrome de desarranjo mental com Trump é uma condição em que a pessoa é levada à insanidade porque não gosta de Donald Trump, até o ponto de abandonar toda a lógica e a razão.”

O tuiteiro-chefe, repetindo tudo o que vê na Fox “News,” se apropriou do termo para tentar distrair a atenção nacional da debacle no tête a tiete russo-americano na Finlândia. Diagnosticou a TSD em quem critica sua prostração diante do presidente russo que ordenou uma ataque à principal expressão da democracia, a eleição.

Acompanhei a semana que pode ter quebrado a espinha desta presidência, na análise de mais de um articulista conservador, de um local privilegiado e longe de sofredores de TDS. Estava hospedada num sítio, com wifi intermitente, sem sinal de celular, ocasional falta de luz e acompanhada de crianças que jamais seriam tocadas pelo capitão “apaixonado por Trump” para dobrar seus dedos em forma de revólver. E entendi a reação recente do editor Ezra Klein, do site Vox, chocado quando voltou para Washington de uma licença para escrever um livro na Califórnia. “Voltar à cobertura diária é como ter alguém berrando no seu ouvido sem parar. É como se Donald Trump estivesse me seguindo o tempo todo, ‘Olha o que eu fiz! Olha!”. Para manter a sanidade, nós temos que decidir para onde olhar, disse Klein.

Isolada e em boa companhia, li o argumento de John Paul Rollert, professor de Ciência Comportamental da Universidade de Chicago, num artigo publicado pelo Buzzfeed. O poder do presidente não é intimidar ou despertar medo, é provocar fadiga, diz Rollert. Enquanto jornais compilam o número de falsidades acumuladas em 16 meses de presidência, é a repetição de fabricações que conforta os seguidores e desorienta os afligidos por TDS.

O professor cita uma passagem do próprio presidente no livro Think Big (Pense Grande). Numa grande negociação, diz ele, “você esmaga o opositor e sai com alguma vantagem”. Nada desse papo de dois lados vitoriosos. Apesar de ter vivido em mansões luxuosas e ter se permitido todo o desejo carnal imaginável, a visão que ele tem do mundo, diz Rollert, é notavelmente sombria. O talento do presidente, ele escreve, foi ter explorado logo cedo as normas de civilidade, como, por exemplo, receber o benefício da dúvida, pela posição que ocupa, quando diz algo que sabe não ser fato. São normas que só funcionam se dois lados de uma conversa têm estima semelhante pela verdade. O outro lado, ele sabia, seria vencido pelo cansaço.

A insanidade foi talvez bem definida pelo grupo Narcóticos Anônimos para qualificar dependentes: é fazer o mesmo erro repetidamente e esperar resultados diferentes. Cercada de sabiás e bem-te-vis, sem gritos no meu ouvido, fico tentada a olhar a TDS como uma forma de dependência, em que boa parte do tempo se consome clamando pela volta à sanidade. É exatamente os que os satisfeitos com o status quo esperam. Este momento não começou em 2016. É o resultado de décadas de ganância, subversão pelo dinheiro injetado na política, obstáculos aos votos de minorias, somados à omissão e complacência dos democratas. No constante mal-estar que acometeu a maioria dos americanos, pode se perder a noção de que a cura para as doenças da política está na política.

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