Maitê Proença encena delírios da princesa Isabel

Sob direção de Domingos de Oliveira a atriz Maitê Proença vai encarnar no palco uma delirante princesa Isabel, no espetáculo Isabel, Relatório Confidencial sobre o Fim da Monarquia. A atriz vai dividir o palco com Aderbal Freire-Filho e Clarice Niskier. A peça tem estréia prevista para o dia 21, no Paço Imperial, no Rio, hoje transformado em Centro Cultural.O espetáculo não só inclui fatos históricos - toda a ação transcorre no última noite de permanência da família imperial no Brasil, logo após a Proclamação da República - como também a criação do texto faz parte de uma longa trama, que envolve até mesmo o ex-presidente Getúlio Vargas, a quem Freire-Filho atribui a autoria da peça.O teatro sempre exerceu forte atração sobre Vargas. Além de convidar trupes para apresentar espetáculos no Palácio do Catete, não raro ele integrava a platéia das "revistas" apresentadas nas casas da Praça Tiradentes, musicais que satirizavam a sociedade brasileira, nos quais muitas vezes ele era personagem.Ao pesquisar a vida do ex-presidente para encenar o premiado espetáculo O Tiro Que Mudou a História, o diretor e ator Aderbal Freire-Filho deparou-se com uma interessante publicação, um livro de perfis de personalidades, publicado em 1937, de autoria de Eduardo Victorino. "Nesse livro, o autor recolhe depoimentos sobre uma peça escrita por Getúlio, cuja existência nunca ficou comprovada", diz Freire-Filho, mostrando o livro de Victorino, numa já amarelada edição da época.Pouco depois da encenação de O Tiro, Freire-Filho assumiu a direção artística do Teatro Carlos Gomes, na Praça Tiradentes, e a idéia de que a peça pudesse ser encontrada na labiríntica construção passou a persegui-lo. Freire-Filho faz mistério sobre a origem do texto. Terá ele encontrado o original de Getúlio? Evidentemente, as apostas para a autoria de Isabel vão mesmo para Freire-Filho.Com Maitê e Clarice, ele atua no espetáculo cujo prólogo revela a origem da peça. A autoria é creditada a Vargas e, num "golpe de teatro", a cena seguinte mostra como o texto chega às mãos de um jovem diretor. A partir daí, começa a história da última noite da família imperial no Brasil. "Depois da Proclamação da República, a família imperial foi intimada a deixar o Brasil em 24 horas", diz Freire-Filho. "De fato, eles saíram do Brasil na tarde do dia 17 de novembro."O texto mistura fatos reais e imaginados. "A partida realmente foi feita às pressas, mas não há registro dessa noite." Na peça, a princesa Isabel tem uma crise de loucura e, apesar dos apelos de sua aristocrática preceptora (Clarice Niskier), perde as estribeiras e "desce o morro". Chega a dizer palavrões na hora de desancar o país que ela planejava reinar um dia e agora a expulsa. "Isabel era um beata, um religiosa fanática e, nessa peça, Getúlio faz dela uma louca desbocada", comenta Freire-Filho."A Proclamação da República certamente era inesperada; pouco antes acontecera o famoso baile da Ilha Fiscal", salienta. "Além de ser a primeira na sucessão - Isabel já substituía Pedro II em suas viagens pelo exterior -, ela era brasileira, nasceu aqui e deve ter sido duro, sob vários aspectos, abandonar o País de um dia para o outro." Nas críticas da irada princesa ao País, a peça acaba traçando um divertido panorama das mazelas brasileiras da época, não muito diferentes das de hoje.Há cinco anos, Freire-Filho mostrou o texto para o diretor Domingos de Oliveira, que ficou fascinado. "Todo início de ano ele perguntava se eu iria encená-la." Finalmente, Domingos decidiu ele mesmo dirigir e mostrou o texto a Maitê que, igualmente entusiasmada, assumiu a produção do espetáculo."A peça encantou-me e, ao mesmo tempo, me deu muito medo", comenta a atriz. "Afinal, trata-se de um figura histórica, respeitada por sua sensatez, associada a uma imagem de bondade, de libertadora, retratada no palco num momento de loucura." A atriz aponta como principal dificuldade oferecida pelo papel, o risco de cair na caricatura, no estereótipo da louca de olhos arregalados. "Não se pode utilizar recursos fáceis ao interpretar uma personagem como essa."Segundo ela, a comicidade da situação exige que a interpretação seja feita a sério. "A personagem vive um drama." Clarice também tem um grande desafio pela frente, viver uma velha preceptora. "Minha personagem tenta acalmar a princesa até para não ficar desmoralizada", brinca Clarice. "Afinal, Isabel não pode jogar fora tudo o que ela ensinou durante anos." Clarice define o espetáculo como uma tragicomédia, misto de ficção e história. Freire-Filho reveza-se em vários personagens, entre eles o presidente do Banco do Brasil e o médico Miguel Couto.Antes de decidir produzir e atuar em Isabel, Maitê tinha outros dois convites para o teatro, todos tentadores. Foi Clarice quem a ajudou a decidir por Isabel. "Ela usou um argumento que vai passar a ser um mote em minha vida: teatro é para fazer com amigos." Segundo Maitê, uma personagem desse porte oferece o desafio de sair do conforto proporcionado pela televisão. "Não estou reclamando, sei que o ritmo industrial exige que os diretores trabalhem com o que o ator sabe fazer", argumenta. "A televisão dificilmente permite experiências inovadoras; Isabel me desafia."

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