MAIS VASTO ERA O SEU CORAÇÃO

Um alerta aos escritores profissionais que guardam seus primeiros rabiscos, mas não querem deixá-los para a posteridade, ou aos que tenham mandado esses escritos de juventude literária para amigos próximos, a fim de saber se estavam no caminho certo: o imortal da Academia Brasileira de Letras Antonio Carlos Secchin está aí, alerta, encontrando originais renegados ou esquecidos.

MARIA FERNANDA RODRIGUES, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2012 | 03h08

Aconteceu em 1991, quando ele se deparou com poemas de um João Cabral de Melo Neto ainda adolescente, que não sonhava em escrever Morte e Vida Severina ou A Educação pela Pedra, e publicou aqueles versos de moço. Depois, em 2001, Secchin encontrou a raridade Espectros (1919), a estreia de Cecilia Meireles e única obra proibida de entrar na biblioteca dela. Ferreira Gullar, prêmio Camões, também não gostou de Um Pouco Acima do Chão, seu primeiro livro, mas em 2008 o acadêmico conseguiu a autorização para incluí-lo nas obras completas do poeta. "Tenho essa vocação de desenterrar escritores quando eram adolescentes. Eles deviam ter rasgado e destruído, porque deixando eu acabo descobrindo", brinca Secchin - ele mesmo poeta, ensaísta e crítico literário - às vésperas do lançamento de Os 25 Poemas da Triste Alegria (Cosac Naify), a pré-estreia de Carlos Drummond de Andrade.

Desta vez, o encontro com o livro não foi resultado do habitual garimpo, mas sim de um golpe de sorte. Secchin ganhou - ele não conta de quem - o único exemplar dessa obra, organizada por Drummond em 1924 e dada de presente ao amigo Rodrigo Mello Franco de Andrade. O que ocorreu nesses quase 80 anos é um mistério.

Sabe-se que Dolores, então sua noiva, datilografou os originais e mandou encadernar a coletânea em couro. Sabe-se também que Rodrigo, em determinado momento, emprestou o livro a alguém e aparentemente nunca tentou reavê-lo. Eis que Mário de Andrade entra em cena e uma crônica sua sobre esses poemas é publicada. A obra volta a Drummond, que comenta, ao lado do texto original, item por item destacado pelo modernista. Outra informação desconhecida é a data que Drummond teria dado esse exemplar único a Rodrigo - pode ter sido em 1924 ou em 1937, ano das anotações críticas.

Editar ou não algo que em vida seu autor não publicou é questão eterna para a literatura, mas Secchin não tem dúvidas de que o lugar de Os 25 Poemas da Triste Alegria é na estante dos leitores. "Textos deixados pertencem à história, ultrapassam a dimensão individual", diz. No caso específico de Drummond, ele não lançou o livro em grande tiragem, mas fez uma bela edição para preservar o que não quis publicar.

A obra, destaque da Festa Literária Internacional de Paraty (4 a 8 de julho), que este ano homenageará o escritor mineiro, traz datiloscritos dos poemas, os manuscritos dos comentários de Drummond, já mais maduro, e notas do organizador. Há ainda seleção de artigos sobre poesia escritos por ele entre 1923 e 1924. Em 1930, como se sabe, o itabirano estrearia oficialmente com Alguma Poesia - para se tornar um dos mais cultuados escritores do País.

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