Mais uma vida para o Capital Inicial

Sete meses com uma dor daquelas que não se cura com canções. Ao despencar de um palco de três metros de altura durante um show em Patos de Minas (MG), em novembro de 2009, Dinho Ouro Preto não fazia ideia do que estava por viver entre diagnósticos médicos e quartos de hospital. Seis vértebras e três costelas arruinadas já seria um bom conjunto da obra, mas havia ainda o crânio rompido. Dinho perdeu movimentos até para se alimentar, mas seguiu firme. Com os coágulos que apareceram em seu cérebro sob controle, sofreu novo baque com uma inesperada infecção hospitalar. Só mais tarde saberia o tamanho da encrenca pelo próprio médico que cuidou de sua saúde, David Uip: de dez casos, oito não sobreviviam.

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2010 | 00h00

E então ressurge com disco novo o Capital Inicial, que se apresenta hoje, no Credicard Hall, uma banda acostumada a ressurgir com glória de ressacas tóxicas e isolamentos de mídia. As canções do novo Das Kapital já estavam prontas para serem gravadas na época do acidente, mas ninguém havia entrado em estúdio. As letras, a maioria feita entre Dinho e o antigo parceiro Alvin L., não fazem referências às angústias do cantor em seus dias de molho - e é melhor não procurar por isso nem na faixa Ressurreição, a não ser que alguém esteja disposto a relacionar as costelas quebradas de Dinho a frases como "carros passam dizendo sim / o sinal gritando não / deve ser isso que chamam de ressurreição". Mas, se não está nas letras, a experiência do roqueiro aparece nas decisões. O Capital Inicial mudou seu jeito de gravar, e isso é só mais um reflexo das conclusões de um Dinho recuperado. "Saí do hospital determinado a não aguentar mais as coisas que me incomodam", diz ele.

Se Dinho tivesse uma lista de resoluções pós-porta-do-céu, ela seria mais ou menos assim: 1. Não aguentar mais produtores acostumados a gravar discos como se tivessem um formato para todas as bandas nacionais. 2. Não deixar de mudar coisas do tipo cenário de show por mera preguiça. 3. Não digerir mais nada daquilo de que não se gosta, já que, está provado, a vida vai embora em um tiro. E isso tudo tem a ver com o CD. O "novo" Capital coloca tudo lá na frente, sem medo de ter uma parede de guitarras competindo com a voz. O som, com isso, parece mais vivo e orgânico, já que nada ali soa artifício de estúdio, uma habilidade do produtor David Corcos, que já fez trabalhos com Marcelo D2, Seu Jorge e Planet Hemp.

As músicas reafirmam uma estética que o Capital guarda como um patrimônio. Depois da Meia-Noite, música que já toca nas rádios "por escolha da gravadora", como diz Dinho, é Capital em estado sólido, com refrão ensolarado, base cheia e um jeito de usar a dinâmica (volume), fazendo sempre a alternância entre voz límpida sobre guitarra doce e dedilhada para dali a pouco tudo virar festa. A Menina Não Tem Nada (que no encarte sai por equívoco A Menina Que Não Tem Nada) é outra prova de que existe uma espécie de formato Capital de canções. É como se os acordes dançassem o tempo todo, como se tomassem a função de melodia, que seria da voz (lembra Música Urbana?). As baladas são generosas. A primeira, Eu Quero Ser Como Você, é uma declaração direta que fala mais por música que por letra. Não Sei Por Quê tem frases como "de todos os desastres que eu podia, eu escolhi você".

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Beatles (banda criada em 1990 com Alvin L na guitarra). No You Tube

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