Mais uma faceta genial de Baden

Arranjos do filho Philippe e de Mario Adnet afloram talento do compositor

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2010 | 00h00

Primogênito. Aos 32 anos, morando há cinco em Paris com a esposa e uma filha, Philippe tem a simplicidade dos grandes

 

 

Durante a infância, na França e na Alemanha, a casa dele vivia repleta dos sons emanados do maior violão do Brasil. A música era o lugar comum. Não cessava, fosse durante uma leitura de jornal ou nas frequentes e adoradas transmissões das corridas de Fórmula 1. Em uma espécie de fuga, justamente pelo excesso de melodias e harmonias caseiras, as lembranças mais vivas para ele são as não musicais, como os passeios de bicicleta e as brincadeiras de caubói. Philippe era o xerife e o pai, Baden Powell, além de grande compositor e melhor violonista da história do País, era o vilão.

Não parece tanto tempo, mas no próximo mês faz uma década que Philippe convive com a saudade do pai, após a morte de Baden no dia 26 de setembro de 2000. O violonista deixou lições afetivas, musicais e artísticas ao filho, como encarar o ofício com o afã e o alumbramento diário das descobertas sonoras, a postura no palco e transmissão de emoção ao público.

Sem traquejos pedagógicos, Baden guiava-se pela informalidade com o rebento. Chegou a corrigir o posicionamento da mão esquerda de Philippe ao violão, mas quando o garoto tinha 7 anos, na Alemanha, o encaminhou a um professor dotado de todo o didatismo que ele, Baden, não tinha, na hora de ensinar música para as crianças. "Já que ele não podia me ensinar, acabei procurando outro instrumento. O que era uma curiosidade de criança aos poucos tornou-se interesse real e nunca mais larguei o piano", conta Philippe.

Aos 32 anos, morando há cinco em Paris com a esposa e uma filha, ele apresenta hoje, no Auditório Ibirapuera, Afrosambajazz, disco em homenagem à obra do pai e concebido em parceria com Mario Adnet, contemplado na última quarta-feira como melhor arranjador pelo álbum, no Prêmio da Música Brasileira.

Sopros. O disco - um dos melhores de 2009, foi lançado no ano passado, mas só agora entrou em turnê, após captação de recursos para circulação, passando por Brasília, Curitiba, Porto Alegre, Recife, Rio e Salvador - serve para reparar algumas injustiças em relação a Baden. Naturalmente sempre visto como exímio violonista, a faceta deste grande compositor é aflorada em Afrosambajazz, graças à formação da banda, com sete instrumentos de sopro, revelando toda a influência sofrida por Baden de seu professor Moacir Santos.

Philippe usa a fala mansa e articulada, transparecendo uma simplicidade assombrosa, para falar de referências como Eddie Gomes (contrabaixista dos anos 70 que acompanhava Bill Evans), Chick Corea, Scott LaFaro, Rachmaninoff, Bach, Mozart e, obviamente, de Baden e das diferenças técnicas e estilísticas entre ele e seu pai, como, por exemplo, seu modo sóbrio e elegante de fazer o piano falar, fazendo jus a seu lado de arranjador. "Baden era um virtuose. Eu tenho estudo para usar a virtuosidade no piano quando a obra exige, mas não é sempre que é necessário. No disco, me concentrei nos arranjos, o piano é mais um complemento. É como você ter um monte de ingredientes para fazer um prato, tem de saber usá-los", explica Philippe.

O álbum que será apresentado hoje teve de amadurecer com calma, já que o projeto surgiu em 2002. Como forma de respeito, apenas dois anos após a morte de Baden é que o filho resolveu recorrer aos pertences deixados pelo pai na casa da família, na Barra da Tijuca. Revirando gavetas, encontrou cerca de 50 temas inéditos de Baden. Nove seguiam claramente a série dos afro sambas lançados por Baden e Vinicius de Moraes, daí a escolha por gravá-los pela primeira vez. "Meu pai conhecia o Mario e disse que se um dia eu precisasse de um "cara da pesada" que ele me ajudaria. O que mais me intrigou foi que meu pai não escrevia partituras, sempre tocava e compunha de cabeça. Se deixou essas escritas é que queria que ganhassem vida", conta Philippe, sem saber ainda o que fazer com tantas composições inéditas. Sem pressa, ele dá provas de como tratar a obra de Baden, colocando-a em seu devido lugar, lá no alto, e de que, em suas mãos, ainda há verdadeiras bombas a serem reveladas pelo legado de um compositor genial.  

DISCOGRAFIA

Os Afro-sambas de Baden e Vinicius

Em 1966, temas como Canto de Ossanha e Berimbau romperam com a bossa nova.

Os Afro-Sambas - Baden Powell

Gravado em 1990, dez anos após a morte de Vinicius, tem Baden e o Quarteto em Cy.

Afro-Sambas - Paulo Bellinati e Mônica Salmaso

De 1997, com a voz afinadíssima de Salmaso e as ousadas harmonizações de Bellinati.

Afrosambajazz

Lançado em 2009 com arranjos que evidenciam toda a influência do professor Moacir Santos sobre Baden.

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