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Mais uma chance de conhecer o bom texto de Jon Fosse

Chega a SP a peça 'Sonho de Outono', do autor norueguês que aos 50 anos alcançou prestígio mundial

Beth Néspoli, de O Estado de S. Paulo,

06 de novembro de 2009 | 01h00

Com apenas 50 anos, o dramaturgo norueguês Jon Fosse tornou-se um autor teatral encenado em dezenas de idiomas, com peças já apresentadas em 36 países, um daqueles fenômenos por conseguir atravessar culturas distintas - China, Croácia, Estados Unidos, Turquia e Suécia estão entre os países nos quais sua obra subiu aos palcos -, e ainda assim interessar artistas e tocar o público, falar de seu tempo. A primeira montagem de repercussão, O Nome, foi dirigida por Denise Weinberg em 2003, traduzida por Alexandre Tenório, que por sua vez dirige Alguém Vai Vir em 2006. No ano seguinte, duas outras peças, Roxo e Em Um Dia, no Verão, estreiam no País, a primeira sob direção de Fernanda D’Umbra, em São Paulo, e a segunda em encenação de Monique Gardenberg, no Rio.

 

Também vinda do Rio, mais uma encenação de uma de suas peças, Sonho de Outono, estreia hoje no Teatro Anchieta e bastaria a equipe de criação para apostar em bom espetáculo. A direção é de Emílio de Mello, parceiro de Fernando Eiras na peça In on It, dirigida por Enrique Diaz da Cia. dos Atores, uma das mais bem-sucedidas montagens cariocas que já percorreu festivais do Brasil e deve estrear em janeiro em São Paulo. Mello estava ainda no elenco de A Gaivota, da Cia. dos Atores, apresentada em dezenas de países do exterior.

 

O elenco, igualmente recomenda conferir, e é integrado por Christiana Kalache - produtora e idealizada da montagem; a experiente Camilla Amado; Adriano Garib, ator que já veio a São Paulo com o ótimo Deve Haver Algum Sentido em Mim Que Basta; Zemanuel Piñero e Daniele do Rosário.

Por que um dramaturgo alcança tanto interesse em tão pouco tempo? "Os textos dele têm uma aparência de realismo, mas não são. Os diálogos parecem tratar de temas cotidianos, mas há sempre muitas camadas. Se a gente tentar uma abordagem realista, sentimental, nada acontece, tem de ser conceitual. Não há construção psicológica de personagens, relações de causa e efeito. Isso me interessa hoje", diz Mello.

 

Num texto sem linearidade, sem pontuação, em que as ‘figuras’ em cena nem nome têm, são pai, mãe, mulher, Mello optou por trabalhar com o universo onírico, já apontado no título. "Nos sonhos é assim, a gente está numa cidade estranha conversando com alguém, no segundo seguinte estamos em nossa própria casa, mas que é diferente, no meio de uma roça, as ações não são consequentes, não há acumulação, e a gente aceita isso, porque há um significado, ou muitos, em tudo." Em Sonho de Outono, a morte como passagem necessária para o renovação talvez seja o mais evidente. Não por acaso, todos os personagens se encontram num cemitério, recriado poeticamente na ambientação cenográfica de

Flavio Graff.

 

"É um texto muito complexo, que permite muitas abordagens, nós privilegiamos essa morte que é física, mas também simbólica", diz Mello. O figura central é o homem interpretado por Garib. "Todos os outros se ligam a ele." Ele está no cemitério no enterro do avô, junto com seu mulher (Kalache) e ali encontra pai (Piñero) e mãe (Camila Amado). Ele deixou a primeira mulher (Daniele, abandonou mesmo, e seus pais cobram isso dele. "Ele é o único em movimento, o que abre espaço para a renovação", observa Mello. Ele enfatiza que seu trabalho, como diretor, foi sobretudo conduzir os atores por esse texto que exige o desapego da construção psicológica, na busca de outra qualidade de atuação.

 

Sonho de Outono. 80 min.  14 anos. Teatro Sesc Anchieta (328 lug.). Rua Dr. Vila Nova, 245, tel. 3234-3000. 6.ª e sáb., 21 h; dom., 19 h. R$ 20. Até 6/12

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