Mais um serviço para o chato a jato

Mesmo no tempo das hélices, já havia chato a jato. Claro que já havia, o que não havia era avião a jato. A designação de hoje se deve à tecnologia dos aviões atuais, mas creio que, desde que o homem passou a utilizar meios de deslocamento que não as pernas, o chato a jato já existia. Hão de ter existido chato a cavalo, chato de trenó, chato de trirreme, chato de caravela e assim por diante. No meu caso, que sou chato a jato, não acho impossível que se trate de um problema de origem genética. O coronel Ubaldo, meu façanhudo avô materno, que nunca chegou nem perto de um avião e ficava inquieto nas raríssimas ocasiões em que algum deles sobrevoava a ilha, era renomado chato de canoa e de lombo de jegue.

JOÃO UBALDO RIBEIRO, O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2012 | 03h10

O comportamento do chato a jato varia de indivíduo para indivíduo, a ponto de sua classificação ainda desafiar a ciência. Mas certos traços são praticamente universais e talvez a classificação não tenha tanta importância assim, porque todo mundo reconhece um chato a jato. A desagradável síndrome geralmente começa a manifestar-se alguns dias antes da viagem. Se a viagem é para o exterior, essa manifestação pode requerer, em certos casos, ajuda médica. A vítima passa a encher a paciência de toda a família, anotando, reanotando e cobrando providências, fazendo previsões sinistras de problemas com as autoridades do país ao qual irá, conferindo várias vezes por dia o horário de saída do voo, perdendo e achando o passaporte de hora em hora, contando, recontando, tricontando e quadricontando dinheiro e assim por diante. Tudo isso se avoluma com o decurso do tempo e, ao entrar no aeroporto, o chato a jato, que passou a viagem de táxi verificando repetidamente passagens, passaportes e outros documentos, tem certeza de que esqueceu alguma coisa em casa que não sabe o que é, mas vai fazer com que ele seja deportado de volta, assim que chegar ao destino.

Creio também que, como quase tudo mais, essa afecção piora com a idade. O grande chato a jato em que me transformaria subsequentemente já era observável desde o tempo em que eu era menino e, como o coronel, nunca tinha visto um avião de perto. O navio da Itaparica de antigamente dava três apitos curtos no instante em que estava prestes a zarpar e quem não embarcasse logo ficava em terra. Na noite anterior à viagem, eu volta e meia acordava, no meio de um pesadelo em que o navio apitava três vezes e eu, sem conseguir sair de casa por alguma razão, chegava à ponte de atracação quando ele já estava se afastando e levando minha família, que assim me deixava abandonado e desamparado, para, com alguma sorte, talvez sobreviver da cata de siris na maré vazante. De lá para cá, acabaram os pesadelos, mas a condição de chato a jato se fortalece a cada dia.

A situação é agravada por outros aspectos das viagens hoje em dia. Os grandes aeroportos são babilônias cada vez maiores e mais confusas, onde o pobre chato, patologicamente atento a modificações anunciadas pelos alto-falantes e monitores, morre cada instante, acreditando que seu voo foi cancelado e que o único jeito de chegar a Berlim, como estava planejado, é por meio de uma viagem de três dias, via Indonésia e Curdistão. O notebook a tiracolo aumenta de peso meio quilo a cada 20 metros percorridos. Mesmo nos aeroportos onde há trens internos e esteiras rolantes para quem caminha, as distâncias parecem ser sempre de alguns quilômetros e o portão G-54, que devia ficar entre o G-55 e H-6, mudou-se para a ala norte, aonde é possível chegar a partir dali dentro de uns dez minutos, em marcha acelerada.

E não esqueçamos as diversas ocasiões em que é necessário passar pela segurança e pelos órgãos de imigração. Minha situação, sob esse aspecto, merece solidariedade ou até compaixão. Além do nervosismo e da barafunda afobada que armo com papéis e documentos, como quem está levando um revólver e dois quilos de cocaína na sacola, há o problema da cara. Eu tenho a cara errada em toda parte: cara de hispano ou árabe nos Estados Unidos, cara de turco na Alemanha, cara de árabe na França, cara de imigrado centro-americano na Espanha. Isso às vezes me rende problemas e, por exemplo, não me lembro com saudade da ocasião em que, em Atlanta, fui cordialmente convidado a sair da porta daquele canudo por onde se entra no avião. Em seguida, tudo ainda dentro da maior cortesia, com o funcionário usando o vocativo sir para me dar suas ordens, fui instruído a tirar os sapatos, afastar as pernas e pôr as mãos contra a parede, como nos filmes da Swat. Usando luvas cirúrgicas, o funcionário me revistou minuciosamente, após o que um cachorro, que um policial chamava Snoopy e era um beagle como o Snoopy de Charlie Brown, me cheirou os fundilhos com um ímpeto que me pareceu transgredir os limites do profissionalismo. Não é uma boa recordação.

No entanto, continuo a viajar e, apesar de toda essa aflição, vale a pena. Enquanto vocês me leem, devo estar em Madri ou Salamanca, na esperança de não envergonhar a pátria e os amigos, nas duas ou três palestras que deverei fazer. Mesmo em tempos muito difíceis, visitar a Espanha não é nenhum sacrifício. E, afinal, há também a obrigação cívica de, quando se oferece uma boa oportunidade, falar do Brasil a um público que nos desconhece. As coisas mudaram. Nunca mais eu tive, para não ver o auditório transformado numa turba enfurecida por eu contar que não conhecia nenhum índio, de inventar histórias sobre como meu pai brigava com os selvagens que pulavam o muro do quintal, para flechar nossas galinhas. Agora, não mais. Agora a gente precisa explicar como é que isto aqui funciona. Pensando bem, talvez o tempo dos índios flechando as galinhas fosse bem mais fácil.

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