Mais um modernista francês chega para abalar SP

Nos últimos tempos, os modernistas franceses têm sido responsáveis por alguns dos momentos altos da programação internacional de alguns museus brasileiros. Após as mostras de Albert Marquet e Raoul Dufy e da exposição do acervo do Museu de Arte Moderna de Paris, chega a São Paulo uma seleção de obras de Maurice de Vlaminck (1876-1958), que na juventude foi um dos líderes do fauvismo - se é que possível considerá-lo como um movimento organizado e articulado - e desempenhou, ao longo da carreira, um importante papel no cenário artístico de seu país. A mostra, idealizada especialmente para a Faap pela curadora Maithé Valls-Bled (que já havia feito a curadoria da exposição de Marquet), reúne 80 trabalhos de diversas coleções que representam as várias fases do pintor.Infelizmente, essa exposição traz consigo uma má notícia: o encerramento da retrospectiva de Pancetti. É lamentável que uma exposição que tem tudo para tornar-se o evento do ano no campo das artes plásticas tenha ficado apenas três semanas em cartaz, no período mais morto da programação. Museus e galerias raramente guardam seu filé mignon para o período de férias, exatamente porque a cidade está mais vazia e as escolas, em férias. Apenas 7,5 mil pessoas puderam ver a exposição. Estranha atitude para uma instituição que pertence a uma faculdade e que se chama Museu de Arte Brasileira - mesmo que seja mais conhecida apenas como Museu da Faap. A síndrome da agenda apressada - que dificulta a realização de uma visita, quem dirá de um retorno para admirar e rever algumas obras - também recairá sobre Vlaminck, cuja mostra fica em cartaz por apenas um mês.Mesmo não sendo uma das estrelas de primeira grandeza da Escola de Paris, Vlaminck é surpreendente em sua coerência e na defesa muitas vezes isolada de princípios opostos aos dogmas de sua era. Via o cubismo e o abstracionismo com péssimos olhos, considerava Picasso responsável por levar a pintura a um impasse. Teve dois grandes mestres, Van Gogh e Cézanne, mas detestava museus e todo tipo de "academização" e orgulhava-se de jamais ter pisado no Louvre. Com uma frase bombástica, ele resume essa necessidade de se manter alheio aos modismos vanguardistas: "Quando não somos estéreis, não precisamos adotar os filhos dos outros", escreveu. Nas últimas décadas de sua vida sua pintura parece ter entrado num certo equilíbrio harmônico, adotando um certo lirismo romântico e combinando um cuidado com a estruturação da paisagem - seu grande tema, ao lado das naturezas-mortas - com um ressurgimento das cores intensas e brutas que dava identidade ao fauvismo.As obras da exposição podem ser subdivididas em alguns blocos. Logo na entrada, à direita, estão aquelas contemporâneas à famosa exposição no Salão de Outono de 1905, em que as cores violentas de fauves como Vlaminck, seu companheiro de ateliê, Derain, e Matisse, escandalizaram a sociedade francesa. Entre elas se destacam duas cenas de interior perturbadoras, que já indicavam uma certa proximidade do pintor com o expressionismo.Outros dois núcleos merecem especial atenção. O primeiro é aquele que reúne as obras ditas "cezanianas", nas quais ele brinca com as paisagens das cidadelas parisienses - aproximando-se algumas vezes da fronteira do cubismo, mas jamais ultrapassando o limite entre a representação da paisagem e a descontrução da cena em símbolos geométricos. "Desde então todas as suas construções estão firmes no chão", ressalta Maithé. Também são comoventes as marinhas e paisagens da região de Chartres - onde se refugiou a partir de 1925, buscando no campo um ambiente mais saudável do que o terrível ambiente de Paris dirante a 1.ª Guerra Mundial, que tanto o impressionou - ou das viagens que fazia pela França.Nessas pinturas, em que predominam elementos fixos, como pequenas estradas sinuosas, esboços de figuras humanas em meio à grandiosidade da arquitetura e da natureza, o que mais impressiona são os céus escuros, turbulentos e em grande movimento, como se estivessem prestes a explodir numa purificadora tempestade.Maurice de Vlaminck - De terça a sexta, das 10 às 20 horas, sábado, domingo e feriado, das 13 às 18 horas. MAB/Faap. Rua Alagoas, 903. tel. 3662-1662. r. 1123/1171. Até 8/4.Abertura, amanhã, às 20 horas, para convidados.

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