Mais trip menos hop, o Massive Attack em SP

Os criadores do trip hop fazem apresentação 'viajante'

Crítica: Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2010 | 00h00

BOM

A tradução para o palco de um gênero musical que prima pelo arranjo minimalista e elegante de camadas sonoras, sugere a hipnose e muitas vezes reduz melodias a um sussurro indecifrável, tal como frases semiesquecidas de um sonho vago, é complicada. Além de depender do som da casa e de técnicos competentes (estes muitas vezes os grandes heróis da noite), a tarefa se torna ainda mais árdua se há falta de um elemento humano que represente essa essência entorpecente com confiança, prendendo a atenção da plateia e a conduzindo pelas viagens propostas.

Este segundo antídoto impediu que o ópio sonoro da seminal banda de trip hop Massive Attack surtisse, em show nesta terça-feira, o mesmo efeito que tem nos discos.

A banda trouxe ao HSBC Brasil uma legião de fãs que a acompanha desde os primórdios, no início dos anos 90, quando os produtores Daddy G, Mushroom e Robert Del Naja começaram a definir a estética cool da década em discos feitos de colaborações com vocalistas. Acompanhados de dois bateristas e um time de cantores, o trio reproduziu com fidelidade a miscelânea de timbres que caracterizam seu som. A qualidade do som estava ótima e, quando veio ao caso, o grupo tocou alto e pesado, como em Angel, cujas guitarras estilhaçaram as nuances viajantes que dominavam o show. Essa tendência para o rock impiedoso, que dá o tom do famoso disco Mezzanine, de 1998, compõe o miolo do show e traz um necessário ímpeto às viagens estáticas do grupo.

Mas o Massive Attack é uma banda de estúdio e suas apresentações carecem da individualidade que suas excelentes colaborações - como a de Tunde Adebimpe, do TV On The Radio, para o recente disco Heligoland - emprestam às gravações. Seus não menos influentes comparsas de trip hop Portishead têm isso na presença de palco de Beth Gibbons, que encarna toda a sensualidade trágica do grupo e deixa a plateia à mercê do gesto mais sutil de seus quadris. Se Robert Del Naja e companhia dispusessem de alguém com metade deste sex-appeal, talvez isso diminuísse o tom kraftwerkiano e impessoal de reprodução sonora.

Mesmo assim, as canções em que as melodias sobrepujam a sonoridade de ambiente, como na bela Teardrop, que parece ser cantada por uma fada, os mundos do Massive recebem o toque de vida exuberante que merecem.

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