Mais sofisticação e menos saudade

Suzana Salles, Lenine Santos e Ivan Vilela voltam à beleza do cancioneiro caipira em CD, com show no Ibirapuera

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2010 | 00h00

"A dor da saudade, quem é que não tem/ Olhando o passado quem é que não sente saudade de alguém?" Os versos de um clássico de Elpídio dos Santos, que Suzana Salles, Lenine Santos e Ivan Vilela gravaram no belo álbum Caipira (2004) são típicos da melancolia que permeia grande parte do universo da música interiorana. De volta à beleza desse cancioneiro, o trio lança Mais Caipira (Borandá), com show no Auditório Ibirapuera amanhã e repertório ainda mais raro, mais sofisticação nos arranjos e interpretações, mas com menos "saudade" num certo sentido.

O tom de nostalgia, no entanto, é inevitável: o universo que eles cantam é profundamente lírico, campestre, onírico, longe da estridência e do vocabulário sofrível dos agroboys novos ricos do asfalto. As letras que a dupla canta, acompanhada da sublime viola de Vilela, são de uma inteligência rara dos matutos observadores, como a de Casa (Ditão de Taubaté) e Pinha no Pinheiro (Geraldo Meirelles/Nhô Fio), duas das mais alegres do CD.

O repertório é antigo, tem três canções de Elpídio dos Santos, outras de Luiz Vieira, Cacique e Tangará, Joubert de Carvalho, Raul Torres, Théo de Barros, valsa, toada, guarânia, algumas que antigamente se chamavam sertanejas, na linha de Luar do Sertão, não exatamente caipiras, como observa Vilela. Mas elas respiram novos ares que, segundo Lenine, "não compartilham da ideia romântica de um "mundo caipira" idealizado", por isso não é saudosista.

Ivan discorda um pouco dele, afirmando que o repertório é mais nostálgico do que o de Caipira. Suzana endossa o parecer do cantor. "Acho que Lenine quis dizer é que o disco não traz arranjos requentados, é contemporâneo. É um pouco mais árido em relação ao primeiro, porque é mais essencial."

A única faixa que liga a canção caipira genuína ao "sertanojo" urbanoide é Fio de Cabelo (Marciano/Darcy Rossi). Galáxias distantes da sirene dos xororós, a delicadeza do arranjo e da interpretação a transformam radicalmente em algo apreciável. "Relutei em incluir essa canção no CD, porque não faz parte da minha história, mas da do Lenine", diz Suzana. "Mas acho que a gente encontrou a essência dela, da melancolia, da tristeza que ela tem."

Vilela criou arranjos aparentemente simples, mas de fina estampa, ao mesmo tempo sofisticados e econômicos, abordando de maneira moderna um estilo tradicional. Ele tocou apenas um tipo de viola em todas as faixas, variando só a afinação, o que faz a diferença de uma para outra, sem que para isso tenha recorrido a qualquer arroubo de exibicionismo. "Viola pra mim é um instrumento da renascença e do barroco, não se pensava muito em harmonia vertical, acorde, massa sonora, mas mais em contraponto. Tento dar esse caráter para a viola, diluindo um pouco essas harmonias", diz. Além dele, em algumas faixa há o acompanhamento da percussão sutil de André Magalhães, que produziu o CD e vai tocar no show de amanhã também.

Vindos de três escolas musicais distintas, Suzana, Lenine e Vilela cada um "tem um aprofundamento diferente nas suas buscas", como diz a cantora. Mas quando se dá esse encontro em torno da música caipira, é como um descanso. "Apesar de trazer toda essa carga, a gente forma outro espaço interno pra cada um, que é muito prazeroso."

SUZANA SALLES, LENINE SANTOS E IVAN VILELA

Auditório Ibirapuera. Avenida Pedro Álvares Cabral, s/nº, portão 2, Parque do Ibirapuera, telefone 3629-1075. Amanhã, às 21 horas. R$ 30.

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