Mais sérios, parlapatões debatem poder do ator

Texto de Hugo Possolo reflete sobre a gratuidade da fama

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2010 | 00h00

Quando escreveu O Rei da Vela, Oswald de Andrade subverteu um dos personagens-símbolo da Idade Média: Abelardo, o trágico amante de Heloísa. Em seu novo espetáculo, os Parlapatões recuperam esse procedimento paródico do autor modernista e vão beber justamente na polêmica peça para nomear o protagonista de A Meia Hora de Abelardo. A montagem, que estreia hoje na sede do grupo, foi escrita por Hugo Possolo e marca mais uma aproximação da trupe de palhaços de um teatro de feições mais dramáticas.

O caminho trilhado por A Meia Hora de Abelardo não é tão distante da comédia como aquele insinuado em A Vaca de Nariz Sutil, espetáculo de 2008 que retomava o sombrio texto de Campos de Carvalho. Mas sinaliza uma intenção de discutir temas de relevância, como a relação entre o teatro e o poder. "Tem um tom mais reflexivo, mas não foge muito das nossas características, nosso estilo. Sempre há um componente de humor", diz Henrique Stroeter, a cargo da direção.

Pontuada pela ironia, a história recupera os últimos minutos na vida de Gabriel Cruz. Ator decadente, Gabriel tem sua identidade praticamente anulada e passa a ser conhecido apenas pelo nome do personagem que interpretou em uma telenovela: Abelardo, um vilão que seduzia suas vítimas para depois matá-las. Passados muitos anos, o protagonista vê a chance de sair do ostracismo quando a repórter de um grande jornal o procura em busca de uma entrevista. Mas o encontro será marcado por percalços e por uma incômoda aproximação entre ficção e realidade.

Inspiração. Na hora de criar a trama de A Meia Hora de Abelardo, Hugo Possolo tinha em mente a figura de Renato Borghi, intérprete da histórica versão de O Rei da Vela pelo Teatro Oficina, em 1967.

Para além da homenagem, porém, surge uma reflexão sobre a explosão da fama gratuita e a febre das celebridades. "Existe sempre um embate entre o jornalista e o artista, mas isso não é tratado na dramaturgia", lembra o diretor. Subjacente, aparece também uma discussão sobre qual seria a importância do talento hoje. "Nesse contexto, o que é fama, reconhecimento? Qual o papel do ator? Ele deve ser ouvido por muitos - trabalhando em uma novela, por exemplo - ou fazer algo mais autoral?", pergunta Stroeter, sem oferecer respostas.

Antes de levar a peça de Possolo para a sala de ensaio, os Parlapatões passaram por uma série de textos. Além de O Rei da Vela, leram e debateram obras como Barrela, de Plínio Marcos, e Rasga Coração, de Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha. Um percurso de pesquisa que tenta se aproximar do poder político do teatro.

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