MAIS QUE UMA GAROTINHA

Imagens e áudios provam a evolução no canto de uma mulher que se despediu no auge

ROBERTA PENNAFORT / RIO, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2011 | 03h12

O documentário de Paulo Henrique Fontenelle não tem nome ainda, mas bem que poderia conter a palavra "saudade". Ela permeia o discurso de todos os integrantes da trupe de Cássia procurados pelo Estado. "Ela era uma pessoa de grupo. Quando viajávamos em turnê, o motorista do carro dela ficava de bobeira: a Cássia preferia ir na van com todo mundo", lembra o violonista e produtor Luiz Brasil.

Saudade é também o que move o projeto de livro-CD de Nando Reis, outro ainda inominado. Ele brinca que seria um Relicário 2, referindo-se ao recém-lançado CD de subtítulo As Canções Que o Nando Fez Pra Cássia Cantar, e que tem registros inéditos, como Baby Love, cortada de Com Você... Meu Mundo Ficaria Completo (1999), e duetos dela com Nando em Um Tiro no Coração e As Coisas Tão Mais Lindas (leia abaixo texto do compositor).

Se tudo der certo (a negociação é com a Cosac Naify, mas nada foi fechado), em breve estará nas lojas uma compilação de "sete ou oito" cartas de Nando enviadas ao apartamento do bairro de Laranjeiras cantado em All Star, desenhos inspirados em músicas, declarações de amor, de amizade e de admiração.

"Era uma correspondência de mão única, eu mandava de São Paulo, de hotéis, e ela nunca me respondia. Numa, falo sobre o que a voz dela significava para mim", antecipa. Um CD com demos e versões inéditas de músicas, registradas apenas em fitas cassete, virá encartado. Inclusive o momento em que ele lhe apresenta aos versos "O problema é que eu te amo/ Não tenho dúvidas que eu queria estar mais perto".

Já para este Natal chegou às prateleiras o presentão Caixa Eller (R$ 150), com nove CDs que revelam o processo evolutivo de seu canto. São oito de carreira, de Cássia Eller, de 1990, do sucesso Por Enquanto, ao Acústico MTV, dos hits e das ótimas sacadas Non, Je Ne Regrete Rien, Vá Morar Com o Diabo e Partido Alto, e o póstumo Dez de Dezembro, de All Star e No Recreio. Vem também o DVD Violões (2010), com uma compilação de programas da TV Cultura entre 1990 e 1999.

Além desses produtos, a gravadora de Cássia, a Universal, ainda tem por lançar (não há previsão de data) o DVD do projeto A Luz do Solo, registrado no atual Citibank Hall, no Rio. É o item do baú considerado mais relevante pelos que acompanharam tudo o que ela fez. Trata-se de uma Cássia raramente vista: em versão intimista, contida num banquinho, no 2001 que começaria na apoteose do Rock in Rio - foi o show nacional arrebatador do festival -, seria marcado pela mais intensa agenda de sua vida e terminaria com sua morte.

Foram duas noites apenas, e um repertório de 16 músicas, hits e surpresas. À época, divulgou-se que os shows não haviam sido filmados e não seriam lançados, para não atrapalhar a divulgação do registro para a MTV (a emissora, aliás, exibe dia 29 uma programação especial dedicada a ela, com entrevistas exclusivas, shows importantes e depoimentos de colegas).

"Tô nervosa pra c.!", ela brincou, ao se ver sozinha, sem sua turma. O foco ali eram a voz e o violão. Intimidante para quem não se achava "exatamente uma cantora que saiba cantar." Quem viu se encantou com as releituras de músicas do repertório de Joni Mitchell (Cherokee Louise), Billie Holiday (You've Changed), Gilberto Gil (Queremos Saber) e Vitor Ramil (Espaço).

Outra Cássia nada conhecida é a do CD com o guitarrista Victor Biglione, gravado há 20 anos e engavetado. Foi derivado de shows que ela fez a convite dele. Cássia ainda despontava (a voz, cheia de recursos, era então mal colocada; a emoção e o viço, contagiantes) e Biglione a chamou para cantar Beatles (Got To Get You Into My Life) e sucessos antigos de Nat King Cole (When Sunny Gets Blue) e Freddie King (Some Old Blues).

"Os fãs dela gostariam de ver, é lindo, mas ninguém se interessou em lançar. Hoje, esse disco para mim não quer dizer absolutamente nada", desdenha Biglione. "Cássia me confessou que ela não estava concentrada, vivia muito louca. Quem vai decidir tudo agora é o Chicão", diz o último empresário, Ronaldo Villas.

Bem parecido com Cássia, Chicão está com 18 anos, é percussionista de seu grupo e divide seu tempo entre a música e o vestibular. Crianças em 2001, os meninos de sua geração se identificam com o jeito libertário de Cássia, o escracho, os palavrões, a imagem da mulher que dispensava sutiã e se dizia "espada".

Camila Eller, de 22 anos, sobrinha que mora em Maceió, não quer deixar isso se perder. Programou junto com a irmã um show tributo no tradicional Jaraguá Tênis Clube, no dia 22. Conta que conseguirá arrastar a banda de Cássia até lá. "Os jovens se identificam. Ela é muito querida por aqui. Para mim, era uma tia divertida, sensacional, que me ensinou a andar de skate."

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