Mais que um filme, Deus e o Diabo é um manifesto

ANÁLISE: Luiz Zanin Oricchio

O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2013 | 02h07

Há um fato interessante a respeito de Deus e o Diabo na Terra do Sol. O filme foi apresentado à imprensa dia 13 de março de 1964. Nesse mesmo dia houve o famoso Comício da Central do Brasil, no qual o presidente João Goulart defendia as Reformas de Base. O comício, incendiário, foi estopim para o golpe de Estado que derrubaria o presidente duas semanas depois, em 1.º de abril, dando início a uma ditadura de 21 anos.

O quadro histórico é importante, pois Glauber, em Deus e o Diabo, expressa um programa de geração. Mais que um filme, é um manifesto. Mais que manifesto, é todo projeto para um futuro que não se cumpriria. De qualquer, forma, Glauber exprime a fé revolucionária e a sua confiança jovem de 20 e poucos anos de que o homem deve se assumir senhor do seu destino, sujeito da sua história, como então se dizia.

O trajeto é exemplar. O vaqueiro Manuel (Geraldo Del Rey), depois de matar o patrão, vaga sem rumo pelo sertão. Conhece primeiro o "Deus Negro", Sebastião (Lídio Silva) em Monte Santo. É a fase mística. Que, superada, passa à fase seguinte, no encontro com o cangaceiro Corisco (Othon Bastos), até que este caia nas mãos de Antonio das Mortes (Mauricio do Valle). No trecho final, Manuel corre em direção ao mar, obviamente aqui significando a esperança de transformação. Esse é o tom otimista. Manuel, essa consciência alienada, supera a fase mística com o beato, a violência sem direção do cangaço, para assumir-se por fim, livre e só, para construir o seu futuro.

Era o clima vigente na época, pouco antes do golpe. Muito diferente, por sinal, daquele expresso no filme seguinte de Glauber, outra obra-prima, Terra em Transe (1967), de certa forma a reflexão de por que as esperanças exibidas em Deus e o Diabo haviam naufragado. Entre outras hipóteses, que podem ser lidas na própria obra de Glauber, mas também fora dela, porque o "progresso" humano não se faz em linha reta, evolutiva. Nem mesmo através das contradições hegelianas, como pode ser intuído no filme. É tortuoso, errático e misterioso. Recua quando parece avançar e vice-versa. Mas, numa época de euforia revolucionária, a racionalidade do progresso e a iminência da libertação parecem fatos evidentes.

Deus e o Diabo na Terra do Sol está disponível numa excelente cópia em DVD, fruto da parceria entre Versátil, Riofilme e Tempo Glauber. São dois discos. Um com o filme, outro apenas reservado aos extras, com depoimentos, músicas, trailer, etc. É uma das obras-primas incontestes do cinema brasileiro.

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