'Mais que desafio, foi um pesadelo'

A figurinista Colleen Atwood fala da dificuldade de criar as roupas de Alice

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2010 | 00h00

 

Desafio. Segundo Colleen Atwood, a parte mais complicada deste trabalho foi conseguir ilustrar as mudanças de tamanho de Alice, ou muito grande, ou muito pequena.

 

Na sua recente visita a São Paulo, James Cameron criticou a decisão de Hollywood de converter para 3-D filmes de sucesso originalmente produzidos em 2-D. Disse que o 3-D não é um procedimento técnico, mas artístico, e que os filmes já devem nascer em terceira dimensão. Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton, foi produzido em 2-D e convertido para 3-D, mas não uma mudança ocorrida durante o percurso. O conceito criativo do filme partia dessa premissa, explica o produtor Richard Zanuck. A decisão não facilitou nem um pouco a vida da figurinista Colleen Atwood.

Numa entrevista por telefone, ela conta como e por que, mesmo tendo trabalhado outras vezes com o diretor Burton - Colleen recebeu o Oscar por Chicago e Memórias de Uma Geixa, ambos de Rob Marshall -, Alice foi o maior desafio de sua carreira. "Tim teve os seus desafios. O meu foi criar roupas que muitas vezes nem eram usadas. Trabalhei com tecidos, e em alguns casos eles foram difíceis de encontrar, pela textura e pela cor, mas na maioria das vezes a roupa era confeccionada digitalmente. E o maior problema de todos foi a mudança de tamanho da personagem. Mia Wasikowska, que faz o papel, tem 1,62 m, mas Alice, na ficção, varia de 15 cm a 6 metros. O espectador ri quando ela fica muito grande, ou muito pequena. Para nós, minha equipe e eu, foi um pesadelo. O figurino tinha de ilustrar as mudanças de tamanho de Alice. Foram pensados em função disso, da mesma forma que o visual, como um todo, foi concebido para ser filmado em 2-D e convertido para 3-D. O figurino, aliás, foi um dos fatores que contribuíram para a decisão."

 

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Carol teve menos trabalho criando as roupas coloridas do Chapeleiro, personagem de Johnny Depp, ou as das duas rainhas, a Vermelha, criada por Helena Bonham Carter, e a Branca, de Anne Hathaway. A Rainha Vermelha, por sinal, aparece em outro livro de Lewis Carroll, Alice no País dos Espelhos. A rainha do livro Alice no País das Maravilhas é a de Copas - cujo bordão, "Cortem-lhe a cabeça!", vai parar aqui na boca de Helena (Bonham Carter). "Meu problema com a personagem era o tamanho de sua cabeça. A gola elizabethana foi um artifício realçado pela maquiagem e pela digitalização, mas o que intimida é o trabalho da atriz, não a roupa."

A estilista pode ficar horas falando sobre roupas no cinema, mas ela avalia que a era de Marlene Dietrich e Audrey Hepburn ficou muito para trás. "Aquelas divas e seus figurinos maravilhosos são coisas do passado. Consideradas individualmente, certas peças de roupa de Alice são esquisitas e, certamente, não são para ser usadas. O que importa é a história que Tim está contando. O figurino é uma de suas ferramentas." Ela não comenta a decisão do diretor de aumentar a idade da garotinha de Lewis Carroll - que vale até hoje ao escritor acusações de pedofilia - para uma jovem mulher. "É o processo criativo dele." Também não comenta a fala de Sandy Powell, figurinista vencedora do Oscar deste ano, que disse que é tempo de a Academia valorizar figurinos modernos. "Sou amiga dela, não quero polemizar, mas não nos cabe dizer o que a Academia deve premiar."

ENTRE O LIVRO E O FILME

 

Rainha Branca

Nas liberdades tomadas por Burton, Anne Hathaway é a guerreira do bem contra o mal representado pela Rainha Vermelha. No livro, até tomam chá juntas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Chapeleiro Maluco

Parceiro do diretor, Johnny Depp fez um desenho mostrando como via o personagem. Sua visualização coincidia com a do próprio Burton.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Rainha Vermelha

Helena Bonham Carter, mulher do cineasta, é a vilã. Seu bordão, "Cortem-lhe a cabeça!", é da Rainha de Copas, no livro que deu origem ao filme.

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