Mais perto mais longe

Não é a lembrança de Elis que deve emocionar, mas a interpretação de Maria Rita: quem sabe não esteja aí a saída para um grande dilema

Julio Maria/RIO, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2012 | 03h10

Algumas toneladas pesam sobre os ombros de Maria Rita. É assustador que consiga parar em pé. Sua segunda atitude de maior coragem em seus 10 anos de carreira é a de encarar seus fantasmas de frente e cantar Elis Regina. A primeira foi quando tomou a solitária decisão de encarar seus fantasmas de frente e se tornar cantora. Se não é fácil para Roberta Sá ou Tulipa Ruiz, vozes livres para soltarem a alma como quiserem, imagine para Maria Rita, a cantora mais vigiada da última década. O fato de ser filha de um dos maiores músicos que o Brasil já teve - chamar Elis de cantora é reduzir um pensamento que nunca foi só de cantora, mas sim de instrumentista - reserva-lhe uma crueldade. Quanto melhor fica, mais parece se aproximar da mãe. Sua maturidade segue a linha evolutiva da maturidade de Elis, em gestos e empostações, que o País todo acompanhou. Ao tentar guardar distância disso tudo e segurar as ações do próprio instinto, vira uma outra coisa que não ela mesma. Uma mentira. E assim o dilema é posto em quase duas horas de show. Afinal, qual a saída para Maria Rita? Guardar respeito pela mãe e reforçar que só quer fazer homenagem ou deixar que digam, que pensem e que falem e simplesmente ser o que é?

Sua turnê que começa hoje em Porto Alegre, patrocinada pela empresa Nivea, vai passar por outras quatro capitais. A São Paulo chega dia 22 de abril, ao Auditório do Ibirapuera. Os shows serão ao ar livre, gratuitos, com potencial de reunir multidões. O repertório é uma biografia da mãe. Exceto o trágico início como Celly Campello cover, ideia de Nazareno de Brito realizada por Carlos Imperial, todas as fases estão lá. O estouro da boiada de Arrastão; o sucesso desmedido em Como Nossos Pais; o encontro atribulado com o ídolo Tom Jobim em Águas de Março; a graciosa parceria com Adoniran Barbosa de Saudosa Maloca; o engajamento político delicado de O Bêbado e a Equilibrista; o caso de amor nunca correspondido a Milton Nascimento em Morro Velho; o caso de amor nunca correspondido a Gilberto Gil em Se Eu Quiser Falar com Deus; o caso de amor abortado com Cesar Camargo Mariano em Tatuagem; a amizade com Rita Lee de Doce de Pimenta; o caso fugaz com Guilherme Arantes em Aprendendo a Jogar; a perseguidora insaciável por sangue novo em Madalena, de Ivan Lins.

Maria Rita ali são duas: a primeira diz que tudo não passa de tributo à mãe mito. Canta tudo certinho, com banda comportada, sem sacar o microfone do pedestal. A segunda esquece tudo isso e se solta, quase voa, chora sem desabar, arrepia, balança os braços, curva os ombros para frente e se diverte.

E aí algo curioso acontece. Ao entregar a alma às canções de Elis Regina, como faz desde seus shows no pequeno e extinto bar Supremo Musical, de São Paulo, Maria Rita, sem se distanciar da mãe, fica mais Maria Rita. O público a vê agora como costela de Elis, não mais como sombra. É onde parece estar a saída. Ser ela mesma, com tudo o que a carga genética a beneficiou, a coloca acima das comparações porque se torna uma daquelas verdades de deixar o queixo caído. Uma verdade cheia de memórias afetivas de filha e de fãs mas com uma leveza que não deixa nada se sobrepor à própria essência de Maria Rita. As emoções que se sente nos momentos em que ela canta assim, leve e grande, não são provocadas pela lembrança de Elis Regina, mas pela interpretação de Maria Rita.

Não há episódio de mãe e filha mais complexo nas páginas da música brasileira, mas o que Maria Rita não pode deixar de perceber é que tem ouro nas mãos. Nos próximos meses, a música de Elis será levada por ela a um público novo reunido em multidões que a própria Elis nunca teve em seus shows ao vivo, com uma qualidade sonora que não havia. Apresentar o mesmo repertório com vigor e intensidade, como fez com Arrastão em um raro momento de ousadia em arranjos e execução de sua banda no show de segunda-feira, no Rio, pode ser a grande sacada. Até porque Elis jamais subiu a um palco para ser protocolar. Ela ia para o pau e se lixava para o que poderiam dizer.

Assim que Maria Rita nasceu, Elis Regina deu uma entrevista. Perguntaram a ela da filha e Elis desejou apenas que fosse leve. Até o final do ano, não haverá matéria em jornal que citará o nome de Maria Rita sem trazer o de Elis Regina na mesma linha. Era um encontro duro mas necessário, que fará Maria Rita flutuar quando tudo isso acabar.

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