Mais notícias, menos fatos

É preciso descobrir como contar melhor ao público o que ele não sabe que não sabe

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

11 Junho 2018 | 02h00

Uma nova pesquisa do instituto Pew Research Center revelou que 68% dos americanos estão exaustos com o volume de notícias diárias. A fadiga de informação já tinha sido registrada na campanha presidencial de 2016. 

No entanto, mais americanos estão assinando jornais tradicionais como o The New York Times e o Washington Post e também publicações digitais. Nos últimos dois anos, subiu a audiência dos três principais canais de notícias no cabo.

Outro dado da pesquisa do Pew que deve chamar atenção de jornalistas: quanto menos as pessoas consomem notícias, maior sua tendência a ter uma imagem negativa da mídia ou desconfiar de jornalistas. Em abril, depois de comparar as listas de assinaturas de publicações impressas e digitais em todo o país aos resultados eleitorais, a revista Politico apurou que, quanto menor o número de assinantes numa região, maior o apoio ao presidente eleito em 2016. 

Estes achados são música para o tuiteiro chefe que está em Cingapura prestes a encontrar o ditador mais perigoso do mundo. Dizer que ele odeia a imprensa por atacá-la constantemente é ignorar o fato de que ele é uma criatura da mídia, obcecado por ela. Ele pouco usa o Salão Oval com aquela escrivaninha famosa. Prefere uma pequena sala de jantar ao lado para manter a TV ligada o dia todo. Mesmo que esteja despachando sobre o orçamento do Pentágono, o máximo que consegue, dizem assessores, é emudecer a TV. Alguns de seus tuítes são copiados dos créditos da Fox News que vê na tela muda.

Ao estrear na Casa Branca usando o termo stalinista “inimigos do povo” para definir jornalistas, o presidente estava apenas manifestando, sem filtro, inconformismo com o que descobriu no cargo que não esperava ganhar. Depois de quatro décadas em Nova York, o centro nervoso da mídia americana, o empresário que telefonava para tabloides sob o pseudônimo John Barron espalhando rumores lisonjeiros sobre suas empresas ou sua vida sexual, o homem que fazia ponta em filmes como Esqueceram de Mim 2, o anfitrião do reality show que João Dória achou por bem infligir aos brasileiros, perdeu o controle que pensava exercer sobre a mídia.

O bilionário nova-iorquino era visto como um bufão, o jeca da cobertura com o banheiro folheado a ouro, esnobado pela elite de patronos de cultura que frequenta galas suntuosos nos salões do Museu Metropolitan. Por não ser levado a sério, ele não era objeto da rejeição que descobriu despertar. E, aqui, nota baixa para a imprensa e todo o crédito a ele por perceber que havia uma população no país suficientemente irada para votar “contra tudo que está aí.” Ele governa para um terço do país que, nas suas próprias palavras, votaria nele mesmo se ele atirasse em alguém na Quinta Avenida.

Apesar do aumento de assinantes, o obstáculo enfrentado pelo jornalismo é ainda maior hoje, pois a exaustão aflige também jornalistas. Ações de governo, passagem de leis que afetam a longo prazo o futuro da população, seja em saúde ou finanças, estão seguindo em alta velocidade numa via expressa, enquanto a mídia fica paralisada noticiando e interpretando o novo tuíte escandaloso.

Sim, este governo anuncia negociações nucleares pela rede social. Mas, no subsolo da burocracia federal, o destino do país está sendo decidido sem que a maioria, cansada da barulheira diária, possa reagir de maneira informada.

O filme A Grande Aposta (2015) talvez tenha feito mais para explicar ao público a depravação financeira que resultou no crash de 2008 do que qualquer longa reportagem. Não defendo, claro, trazer ficção para o jornalismo. Mas a indústria da informação, nos EUA ou no Brasil, precisa descobrir como contar melhor ao público o que ele não sabe que não sabe.

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