Mais incrível que a ficção

Mais incrível que a ficção

Bem escolhidos, personagens reais impressionam em O Céu sobre os Ombros, de Sérgio Borges

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2010 | 00h00

BRASÍLIA

As histórias humanas de O Céu sobre os Ombros são tão incríveis que parecem inventadas por um roteirista de imaginação fértil. Uma delas é sobre uma transexual, formada em psicologia, professora universitária e prostituta. Outra mostra um adepto da seita Hare Krishna, que também é líder da Galoucura, a fanática torcida organizada do Atlético Mineiro, cozinheiro de restaurante natural e atendente de telemarketing. A terceira é a de um angolano com veleidades literárias, escritor inédito, que nunca trabalhou em sua existência, e pai de um filho deficiente.

Seres extraordinários, não porque tenham feito algo de tão grandioso, mas porque mantêm posição excêntrica em relação à norma e inserem-se no mundo social de maneira muito particular. O diretor, Sérgio Borges, que integra a produtora mineira Teia, fez teste com uma série de possíveis personagens e escolheu aqueles que tivessem melhores histórias e também se relacionassem bem com a câmera. No filme, interpretam a si mesmos. E com muita convicção.

Assim, a transexual Evelyn, o hare krishna Bogus e o escritor Lwei Bakongo veem-se pelos papéis que vivem na tela. O filme é um documentário sobre três pessoas fora do esquadro? Uma ficção sobre o lado B da sociedade? Sim, mas, mais provavelmente, desenvolve algo que se pode chamar autoficção, em que as pessoas interpretam seus papéis sociais não exatamente como são, mas como os percebem diante dessa testemunha nada imparcial que é o olho mágico da câmera cinematográfica. Nesse retrato formado por autorretratos há espaços em branco, vácuos que permitem a respiração das histórias. O bom cinema, como a boa música, é feito de lacunas, pausas e tempos mortos. Essa noção de ritmo (porque é de ritmo que se trata) encorpa O Céu sobre os Ombros. É exatamente por não sabermos tudo sobre os personagens que eles adquirem espessura e consistência humanas.

Em patamar distinto trafega outro concorrente, o também mineiro Os Residentes, de Tiago Mata Machado. Em registro subgodardiano, costurado por infinidade de referências (Cassavetes, Eustache etc.), o filme, com seu artificialismo, levou a plateia do Cine Brasília a tal exasperação que no meio da projeção alguém gritou: "Volta, Bressane". A súplica se endereçava a outra das referências do longa, o cineasta Julio Bressane, o "sr. Brasília", pois já venceu quatro vezes o prêmio principal. Bressane é conhecido por seus filmes tão obrigatórios como difíceis. Às vezes é complicado assimilá-los, mas a recompensa é grande. De Os Residentes e seus personagens ilustrativos de teses do diretor, sobra apenas a sensação de vazio.

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