Claudio Onorati/Efe
Claudio Onorati/Efe

Mais e melhores filmes

Apesar de alguns tropeços, a boa seleção salva a tradição da mostra

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2011 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL / VENEZA

O reconhecimento a Fausto faz bem tanto a Veneza quanto a Sokurov. Ao dar o prêmio principal ao russo, a mostra readquire uma dignidade esgarçada nos últimos anos com filmes perecíveis. E Sokurov, no auge de uma carreira já longa, pela primeira vez é contemplado com o troféu mais importante de um grande festival internacional. Veneza e Sokurov estiveram à altura um do outro, e esse é o belo legado do júri presidido por Darren Aronofsky. É um reconhecimento que consolida uma carreira e pode tornar mais fáceis as produções dos seus filmes seguintes.

Também facilitará o diálogo da obra com um público mais amplo? Nada mais duvidoso. Fausto é um filme exigente, que não propõe qualquer amenidade para facilitar a vida ao espectador. Com seu episódio do pacto diabólico, é, obviamente, uma parábola sobre o poder e sobre os acordos espúrios que se fazem na trajetória rumo ao topo. Desse modo, Sokurov fecha sua tetralogia dedicada às figuras da política, iniciada com os anteriores Moloch (Hitler), Taurus (Lenin) e O Sol (Hirohito). Não deixa de ser significativo que, depois de retratar três figuras históricas reais do século 20, Sokurov tenha recuado a um tempo anterior em busca do personagem fictício que, de certa forma, resume na sua as trajetórias daquelas três figuras históricas.

Também não deixa de ser sintomático que, depois de receber esse grande prêmio, Sokurov tenha falado ao telefone com o primeiro-ministro da Rússia, Vladimir Putin. "Conversei com ele e reiterei a necessidade de que o Estado continue a apoiar a arte e a cultura", disse Sokurov. Aliás, seu discurso de vencedor foi todo no sentido da valorização da cultura, que não pode ser considerada perfumaria supérflua e necessita de cuidados (estatais) para não desaparecer. Conclusão: pode-se desprezar a política e os políticos, mas não se podem ignorar as figuras do poder. Afinal, elas estão aí, gostemos delas ou não. Pode-se cogitar se o próprio Putin seria um personagem a ser considerado no futuro, caso Sokurov resolva expandir sua galeria de tipos do poder. Mas isso, por enquanto, é prematuro.

Importa mesmo é que Fausto seja reconhecido pelo que é, um grande filme, cujas diversas camadas de significado não se esgotam em uma única vez. Será preciso voltar a ele, prestar atenção em seus detalhes e conferir a visão de mundo que se filtra através de imagens tão sedutoras quanto, às vezes, repulsivas. Imagens marcantes, em todo caso, de um esteta que se apoia tanto na tradição literária como na pictórica. É um filme que mexe com a gente e esse, provavelmente, é o melhor elogio que se possa fazer a determinado tipo de cinema num tempo de indiferença.

Nas outras categorias cabem queixas quanto a um ou outro quesito. Por exemplo, o premiado roteiro de Alpis talvez seja de fato engenhoso, mas passa uma frieza de todo indesejável. Talvez reflita, no subtexto, os impasses de um país de enorme tradição cultural e que já não sabe para onde ir. Mas é preciso forçar um pouco o dom da interpretação para chegar a isso. No todo, o filme desagradou. Já a premiação da fotografia de Whutering Heights, ousada versão da britânica Andrea Arnold para o romance de Emily Brontë O Morro dos Ventos Uivantes, parece mais do que justa.

Os prêmios de interpretação também ficaram com seus legítimos donos: a chinesa Deanie Yip por Tao Jie (A Simple Life) e Michael Fassbender em Shame, de Steve McQueen. Deanie é de uma dignidade sem par na composição da anciã que vai para uma casa de repouso após haver servido por 60 anos uma família de Hong Kong. E Fassbender não teria papel mais adequado do que o de Brandon, yuppie com compulsão pelo sexo. Estava também em outro filme, A Dangerous Method, de David Cronenberg, no papel de Carl Gustav Jung. Se Fassbender não vencesse, é possível que a ala feminina do festival saísse em passeata de protesto pelas ruas do Lido.

Já o Prêmio Marcelo Mastroianni para ator ou atriz emergente teve resultado mais controverso. Foi dividido entre os adolescentes Shota Sometani e Fumi Nikaidô, pelo trabalho em Himizu, de Sion Sono, do Japão. O filme é irritante, e muito em função da atuação gritada da dupla vencedora. Mas também há que se destacar que é a primeira obra ficcional japonesa após o terremoto, seguido de tsunami e acidente nuclear em Fukushima. Possui valor pela atualidade e mensagem de que o país tem tudo para se reconstruir. Essa premiação reflete o que foi o trabalho do júri: em parte estético e, em parte, político. Escolhe o melhor filme, não esquece um representante da Itália, acolhe generosamente os países asiáticos, xodós do festival, e defende as boas causas - no caso, o grito (literal) de esperança de um país ferido por uma catástrofe natural.

O júri só não foi político com os Estados Unidos, que chegaram com uma força-tarefa de cinco concorrentes e saíram de mãos abanando. Aronofsky, como notaram alguns analistas italianos, se comportou como é de hábito entre os presidentes de júri norte-americanos, que se colocam acima de qualquer suspeita de patriotada e não puxam a brasa para os filmes do seu país. A exceção foi Quentin Tarantino que, no ano passado, premiou a ex-namorada Sofia Coppola na maior cara dura.

No balanço geral, deve ser reconhecida a boa qualidade de uma mostra que teve 23 competidores bem escolhidos, com duas ou três exceções. Nas paralelas e fora de concurso também houve do bom e do nem tão bom assim, para ser ameno. Para compensar o dispensável Contágio, de Steven Soderbergh, ou o lamentável e kitsch W.E., de Madonna, houve coisa fina como o magnífico La Folie Almayer, da belga Chantal Akerman, e o pungente Il Villaggio di Cartone, do veterano mestre italiano Ermano Olmi. Alguém já disse que um festival é uma ilha de filmes cercada de bobagens por todos os lados. Quando essa ilha tem solo fértil, todo o resto se perdoa.

PRINCIPAIS PRÊMIOS

Leão de Ouro: Fausto, de Aleksander Sokurov (Rússia)

Leão de Prata (melhor direção): Sangjun Cai, por Ren Shan Ren Hai (China, Hong Kong)

Prêmio Especial do Júri: Terraferma, de Emanuele Crialse (Itália)

Coppa Volpi (melhor ator): Michael Fassbender, por Shame, de Steve McQueen (Grã-Bretanha)

Coppa Volpi (melhor atriz): Deanie Yip, por Tao Jie (A Simple Life), de Ann Hui (China, Hong Kong)

VENEZIANAS

A vida é assim

Não deram a menor bola para o filmaço La Folie Almayer, texto de Joseph Conrad adaptado por Chantal Akerman. Já o fato de a diretora belga ter acendido um cigarro durante a entrevista

coletiva saiu em todos os jornais.

Protecionismo? Não...

O presidente do júri, Darren Aronofsky, negou que o troféu para Terraferma veio pela necessidade de premiar um filme italiano. "Ele comoveu a todos desde o primeiro minuto e em nenhum momento se

cogitou de deixá-lo sem reconhecimento." O presidente, como fizerem todos os seus antecessores, se queixou de que havia filmes bons a mais e troféus disponíveis a menos.

Sinal dos tempos

O nu explícito de Monica Bellucci em Été Brûlant, de Philippe Garrel, não causou a menor impressão. Já o nu meio insinuado de Michael Fassbender em Shame, de Steve McQueen, causou o maior tititi no Lido.

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