Mais do mesmo, só que bem-feito

Santuário faz bom uso do 3D, mas é diversão limitada feita de sustos e de algum incômodo psicológico

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

05 de fevereiro de 2011 | 00h00

A boa notícia a respeito de Santuário, de Alister Grierson, é que faz uma boa utilização do 3D. Como se sabe, esse recurso, tido não faz muito tempo (na época de Avatar, para ser preciso) como a salvação da lavoura do cinemão, vem sendo banalizado. Santuário, desde as primeiras cenas, mostra que o 3D se integra à sua linguagem. Quer dizer, funciona de uma maneira que não se poderia talvez imaginar o filme, sem séria perda, sem o uso desse expediente tecnológico.

A segunda notícia, e esta não tão boa, é que, se recursos tecnológicos são bem utilizados em Santuário, o mesmo não se pode dizer dos, digamos assim, recursos humanos - para utilizar essa expressão tão cara às corporações contemporâneas. Por exemplo, não se pode dizer que a história (o roteiro) seja construída de modo dos mais originais.

O que Santuário nos traz? Uma aventura como talvez já existam dúzias iguais. Trata-se, nada mais nada menos, do que um grupo de exploradores que fica preso numa caverna e tem de buscar a saída em outra parte. Eles entraram pelo topo, mas este ficou inacessível em virtude de uma tempestade tropical. Têm, então, de buscar o escape por baixo, rumo ao mar, pois o tal santuário natural fica à beira do oceano. Ou seja, se veem obrigados a afundar cada vez mais em busca da salvação.

A aventura traz momentos de tensão, bem explorados pela câmera. Aposta menos em sustos do que numa atmosfera claustrofóbica; afinal os heróis estão enclausurados numa armadilha da qual precisam escapar mergulhando cada vez mais fundo e dependendo da existência de bolsões de ar para poder respirar. Funciona, para o que se propõe.

Há mesmo alguns ingredientes diferentes. Frank Maguire (Richard Roxburgh) é o chefe da expedição. Experiente, tipo autoritário, tem relação complicada com o filho Josh (Rhys Wakefield), que lá chega com uma namorada.

Os outros personagens compõem um grupo diversificado o suficiente para que os dramas possam surgir - o empregado heroico, que pensa mais no coletivo do que em si mesmo, uma mulher que entra em pânico, um egoísta que não hesita em prejudicar a todos para salvar a própria pele, etc. Enfim, é o drama do ser humano em grupo, levado ao seu limite e tentando preservar a vida mesmo a custo de alguns tabus morais.

Mas, claro, de todos os conflitos interpessoais, o mais marcante (por assim dizer) será aquele entre pai e filho. De algum lugar os roteiristas devem ter tirado essa certeza: em qualquer crise de imaginação, coloque uma disputa entre pai e filho e tudo passará a funcionar. Faz algum sentido. Há sempre alguma coisa que desafina entre o filho e a figura paterna - como já sabia um velhinho sabido de Viena, o nosso amigo Dr. Freud.

Imaginário. Na maior parte das vezes, mamãe está no meio da briga. E isso, outro cara bem mais velho que Freud também já sabia: um certo Sófocles, que viveu na Grécia antiga e escreveu uma peça chamada Édipo Rei. Bem, tudo isso para dizer que a complicada relação entre pai e filho (feita de amor e conflito) parece inscrita no imaginário profundo da humanidade. Daí que, de uma forma ou de outra, se supõe que produza ressonâncias no espectador. Uma espécie de frisson ancestral, que faz com que se identifique mais com a história. E, portanto, acabe gostando do filme mais do que ele merece.

No mais, apesar das boas cenas de ação e tensão, e além desse expediente psicológico, Santuário fica apenas na rotina. Não é mau filme - dentro daquilo que se propõe, ser uma diversão limitada, feita de sustos e de algum incômodo psicológico.

Mesmo dentro dessas propostas limitadas, poderia encontrar caminhos mais desafiadores para o público. Não existiu essa preocupação. Esses limites denotam a própria timidez dos realizadores. Ou, talvez, seja apenas aquela velha ideia preconcebida de que o público de fato não deseja nada além daquilo que já conhece. Mais do mesmo, para resumir. Tecnicamente é bem-feito. Mas o cinema deveria querer algo mais. Mesmo o cinema-pipoca.

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