Mais de mil histórias do Oriente

De início, vale uma recomendação de Mamede Mustafa Jarouche, professor de literatura da Univesidade de São Paulo e tradutor do árabe: "Se você quer entender o Oriente, leia obras de história, de sociologia, Os Mil e Um Dias e 101 Noites só vão ajudar a entender melhor a literatura."Mamede é o tradutor de As 101 Noites - Histórias Árabes da Tunísia, que será lançado no início do ano que vem. Por um acaso desses que ninguém deve se atrever a explicar, tanto seu livro quanto Os Mil e Um Dias (Labortexto/Oficina do Livro, 464 págs., R$ 34) tiveram o lançamento planejado antes dos atentados de 11 de setembro, contra Nova York e Washington, e, portanto, antes que se iniciasse a guerra no Afeganistão. O português, com essas duas traduções - e com uma grande versão das Mil e Uma Noites que Mamede prepara - passa a ser uma das poucas línguas com tantas versões dessas histórias orientais (e de suas versões).As 101 Noites (Hedra, 267 págs.), apesar do nome, não são uma redução de As Mil e Uma Noites. Na verdade, são histórias que, tudo indica, se construíram paralelamente. As versões das 101 são todas tunisianas, enquanto as das Mil e Uma são egípcias e sírias. Em comum, a narradora, Xerezade (ou Cheherazade, ou Shahrazád, ou ainda Scherazade, dependendo da tradução), que, nas duas obras, procura, com suas histórias, conter o ímpeto de um rei que tem por hábito matar suas mulheres após a primeira noite."O crítico tunisiano Mahmoud Tarchouna, primeiro e único editor árabe do Livro das 101 Noites, observa que essa obra partilha com seu análogo mais ilustre, o Livro das Mil e Uma Noites, o peculiar destino de terem sido traduzidas para o francês antes mesmo de terem seu texto definitivo fixado em árabe", escreve Mamede na introdução.Mas, ao contrário do que ocorre com As Mil e Uma Noites, que tem um número variado de histórias (a versão que pertenceu ao francês Antoine Galland, tradutor da primeira edição popular no Ocidente do livro, tinha 282, e há uma no Cairo, conhecida por Mamede, que chega a 1.007 noites, embora o compilador não se dê conta disto), As 101 Noites têm sempre 101 noites.Há indícios de que as primeiras versões escritas das 101 Noites remontem ao século 13, como também as das 1.001. Mamede aponta pistas de que as 101 sejam mais antigas como a presença de histórias da tradição árabe pré-islâmica e características mais tradicionais.Na versão traduzida por Mamede, Shahrazád é irmã de Dinarzád, esposa do rei que matava suas mulheres. Conta histórias para salvar a vida da irmã. "Ao se completarem cento e uma noites, verificou-se que Dinarzád estava grávida, e por isso o rei concedeu-lhe plenas garantias de vida; desde então, Shahrazád cessou de reunir-se com ele."Feminismo - Essa é a "história-moldura", que serve para que as outras histórias - como a do mercador que recebe do pai a recomendação de que não compre nem venda a prazo ou a do príncipe que se apaixona por uma jovem que odeia os homens - sejam contadas. A existência dessa moldura aproxima, finalmente, tanto As Mil e Uma Noites e As 101 Noites de Os Mil e Um Dias.Voltemos ao século 18. Antoine Galland lança, com enorme sucesso, uma versão francesa de As Mil e Uma Noites, em 12 volumes, de 1707 a 1717. Segundo o escritor argentino Jorge Luis Borges, a versão de Galland, palavra por palavra, "é a mais mal escrita de todas, a mais mentirosa e a mais fraca, mas foi a mais bem lida". "Os elogios mais oportunos e famosos das Mil e Uma Noites - o de Coleridge, o de Thomas de Quincey, o de Stendhal, o de Tennyson, o de Edgar Allan Poe, o de Newman - são de leitores da tradução de Galland", escreve no texto Os Tradutores das Mil e Uma Noites.Paris, portanto, movimentou-se com o surgimento daquele oriente, de certo modo, "reinventado" por Galland. "Punha-se em cena a questão do feminismo, sempre latente", escreveu R. Ransinos Assens, autor de um ensaio sobre as traduções de As Mil e Uma Noites para o castelhano.Nesse ambiente, o também francês Pétis de la Croix lança então, Os Mil e Um Dias, aproveitando o sucesso comercial de Galland. É bastante duvidosa a história que teria dado origem a esses contos persas, ora atribuídos a um autor do século 5.º, ora ao derviche Mujis, no século 17, pouco antes da versão francesa. O fato é que os cinco volumes de Os Mil e Um Dias surgiram em Paris entre 1710 e 1712 e só em francês existe uma reunião de contos com esse título. E que dias e noites orientais passaram, assim, a compor o imaginário ocidental sobre o Oriente.A história-moldura dos Mil e Um Dias é semelhante à das Mil e Uma Noites, mas é invertida. É uma princesa que sente aversão pelos homens e uma de suas criadas decide lhe narrar histórias que a façam decidir-se por casar. "Conheço uma infinidade de histórias curiosas, cuja narrativa, divertindo a princesa, mudará sua opinião a respeito dos homens. Fazendo-lhe ver que existiram amantes fiéis, farei que acredite, sem perceber, que existem ainda", diz a ama, que passa a narrar as histórias durante os banhos da princesa da Caxemira.Assim, as histórias procuram mostrar o, digamos, "lado bom" dos homens. É também o outro lado da moeda das Mil e Uma Noites, o que reforça a idéia de que a obra pode ter sido uma simples e lucrativa invenção comercial de La Croix. A primeira história narrada, por exemplo, discute a questão da generosidade de dois homens, numa espécie de competição em que apenas um deles, mais poderoso, sabe o que está acontecendo. O ambiente em que as histórias acontecem está mais ao Oriente. Cidades que só nos anos 90 e mais recentemente passaram a freqüentar o noticiário ocidental, como Basra e Kandahar, aparecem nos Mil e Um Dias."Fazem-lhe restrições quanto à originalidade, quanto à sua efetiva autoria, seja do texto oriental, seja da recriação francesa, mas nenhuma no que tange à beleza de seu conteúdo", diz Cláudio Giordano, dono da Oficina do Livro, co-editor da tradução brasileira e bibliófilo responsável pela idéia de traduzir Os Mil e Um Dias.

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