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Mais bafafás literários

Entre os que leram minha prosa sobre bafafás literários, na semana passada, houve quem se surpreendesse com um Carlos Drummond de Andrade capaz de se envolver em cenas de pugilato - no caso, aquela em que ele e o amigo Sérgio Buarque de Holanda, ali por 1935, se engalfinharam por causa de uns encantos femininos.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2015 | 02h09

Pois é isso mesmo. O poeta que, num verso citado e recitado, declarou ter "apenas duas mãos", além do sentimento do mundo, não as usou somente para escrever altíssima poesia, mas também em episódios de beligerância. Ou de atrevida molecagem: em companhia de Pedro Nava, certa madrugada belo-horizontina, usou-as para tocar fogo num varal de roupas na casa das moças Vivacqua, amigas deles, apostando na hipótese de as ver sair, esbaforidas, vestindo camisola.

Ver moça de camisola que não fosse irmã era sonho irrealizável na década de 1920, e não só na recatada Belo Horizonte. E continuou sendo, pois as Vivacquas deram as caras, mas não corpos seminus. (Curiosidade: uma delas, Dora, então garotinha, viria a se notabilizar nacionalmente como a atriz nudista Luz del Fuego.) Para Drummond e Nava, o jeito foi bancar os heróis, encarregando-se de apagar o fogo por eles mesmos ateado.

Bem mais adiante, quase "na curva perigosa dos 50" - lembra do soneto O Quarto em Desordem, em que ele anuncia a eclosão de um novo e vitalício amor? -, Drummond viveu outro episódio em que seus músculos de homem franzino foram requisitados. Em março de 1949, durante tumultuada eleição da diretoria da Associação Brasileira de Escritores, coube ao poeta defender, aos pontapés, o livro de atas da entidade, que manteve abraçado ao peito, ante a ferocidade de adversários dispostos a melar o resultado.

Histórias como essa não chegam a ser raridade na paisagem da literatura pátria, na qual já se viu coisa bem mais grave. Nos anais de nossas letras há registro de pelo menos uma cena de sangue, como diziam os jornais de outrora - aquela, faz agora um século, em que o sergipano Gilberto Amado, bom escritor hoje esquecido, matou a tiros o poeta gaúcho Aníbal Teófilo, no saguão lotado de um grande jornal carioca. A crer em Amado, homem baixinho, o poeta, taludo e encorpado, por algum motivo o perseguia com ameaças e humilhantes provocações.

O assassino, que era deputado federal, chegou a ser preso, mas foi absolvido e fez carreira vistosa na política, na diplomacia e na literatura. De Aníbal Teófilo, autor de um livro só, o que ficou, e por pouco tempo, foi um soneto, A Cegonha, que muita gente trazia na ponta da língua ("Ao vê-la assim mirar-se n'água, penso / ver a Dúvida Humana debruçada / sobre a angústia infinita de si mesma"). Mais célebres que o soneto ficariam sendo os apoteóticos funerais de Aníbal Teófilo, descritos como espetáculo de comoção unânime no Rio de Janeiro. Antes de fechar-se o caixão, poetas encabeçados por Olavo Bilac, teatralmente, esvaziaram vários frascos de perfume francês Idéal sobre o cadáver.

Numa festa em São Paulo, nos anos 1970, o poeta Mário Chamie, passando da inação à práxis, encaixou um pontapé nos glúteos de Telmo Martino, colunista que fizera dele alvo de suas agulhas verbais envenenadas. Motivos e pretextos não faltariam, mas não chegamos a presenciar cenas como o soco com que, num cinema mexicano, Mario Vargas Llosa arroxeou o olho de Gabriel García Márquez, até então amigo, por causa de uma asa que o colombiano teria arrastado para a mulher do peruano.

No Brasil, ainda não tivemos affaire tão sensacional, assim como ainda não emplacamos, como o Peru e a Colômbia, um Prêmio Nobel de Literatura. O que temos tido são embates, orais ou em letra de fôrma, entre inflamados garnisés. E mesmo esses vão escasseando. O falecimento, por outras causas, do poeta Lêdo Ivo, pôs fim ao bate-boca que durante anos o manteve atado a um desafeto, o ensaísta Eduardo Portela, em pegas que animaram até mesmo o ambiente circunspecto da Academia Brasileira de Letras. Sem meias-palavras, Lêdo Ivo não hesitava em trombetear o hábito do adversário de literalmente carregar nas tintas - aquelas, em tons de castanho ou acaju, com que Portela vem há anos pelejando para restaurar uma cabeça que, vicejante por dentro, por fora insiste em se mostrar encanecida.

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