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Mais 15 minutos, por favor

Em Somewhere (Um Lugar Qualquer), filme novo de Sophia Coppola, Johnny Marco é um ator bombado de Hollywood. Está no momento de divulgar um blockbuster, que estreia em todos os grandes centros.

MARCELO RUBENS PAIVA, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2011 | 00h00

Mas, no dia a dia, vive num tédio que o deprime, apesar de todas as garotas da cidade quererem algumas horas com ele na cama, as mais espetaculares garotas da cidade, da vizinha de porta à vizinha debaixo, da jornalista italiana à chinesa.

Johnny circula sem destino com sua Ferrari preta pelas estradas de Los Angeles. Chega a girar a toda, sozinho, num oval imaginário pelas areias do deserto, fazendo hora; a primeira cena do filme.

Tem que sorrir amarelo para a atriz com quem contracenou, para as fotos de divulgação do próximo filme. Pelo visto, ele a papou e não quis continuar. Amargura e rancor nas palavras ao pé do ouvido dela.

Tem de responder a perguntas ridículas numa coletiva - cuja maioria é de correspondentes estrangeiros, com seus sotaques embolados -, como "o que você acha da China?" ou "para você, Johnny, quem é Johnny?"

E depois receber um prêmio na Itália, num programa de TV bizarro, desses que só os italianos são capazes de produzir: muitas loiras dançando e cantando ao seu redor.

Tudo bem. Johnny fura a fila do check in, viaja de primeira classe, se hospeda em hotéis em que têm piscinas nos quartos, não passa uma noite sem o corpo de uma mulher à disposição. Mas e daí?

É o plot do ótimo filme de Sophia, Leão de Ouro em Veneza, que remete a outro longa, Encontros e Desencontros: o que a fama traz além de uma solidão paradoxal e um assédio que causa perplexidade?

Eram felizes Marlyn Monroe, Michael Jackson, Elvis, Salinger, John Lennon? São normais os comportamentos de Xuxa, Britney Spears, Tom Cruise?

Existe uma licença poética para suas extravagâncias. Quanto mais estranhamente se comportam, mais se curte e perdoa. Afinal, se espera de tudo de uma estrela, menos a normalidade dos vassalos, a ralé que os consome.

Um dos dados da popularidade de Amy Winehouse é o "fuck off" que ela ligou para a fama; não vou me reabilitar para satisfazer o que dita o show biz, sou assim, me queiram assim, me deixem ser o que sou.

E o público se diverte ao vê-la trêbada na capa dos tabloides, fica atento ao que ela bebe no palco e grava em celulares seus tropeços. Amy-a o deixe-a. Amy e dê vexame. É isso que se espera dela. Extravagante era a análise dos que cobriram seus shows por estas terras: Vamos ver antes que acabe.

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No documentário Smash His Camera, sobre Ron Galella, um dos primeiros paparazzi do meio, que infernizou a vida de Jackie Onassis (chegou a ser processado duas vezes por ela) e levou um murro de Marlon Brando, que quebrou cinco dentes do fotógrafo - que hoje ganhou status de grande artista e tem fotos expostas no Metropolitan -, vê-se que não é de hoje a guerra fria entre celebridades e imprensa, entre público e privado, e que famosos não querem ser famosos 24 horas por dia.

O que parece é que alguns fazem de tudo para ser. Marlyn dormiu em todas as camas necessárias para alçar a fama. Se casou com um dramaturgo, para mostrar que era inteligente, além de gostosa, e com o esportista mais popular da América. Até na primeira cama, onde deveria estar a primeira-dama, dormiu.

No entanto, resolveu dar um fim, no auge da carreira. "I want to be alone", decretou Greta Garbo após se aposentar.

Como Kurt Cobain, que não cabia nem se encaixava na personagem criada pela fama, apesar de desde os 15 anos sonhar com a vida de roqueiro famoso, desenhar seus figurinos, os logos da banda, ensaiar no espelho caras e bocas.

Fazem de tudo para ser famosos, e depois fazem de tudo para não ser. Chegam a uma fronteira de onde não tem volta. Sentem saudades da rotina de um cidadão comum. Cansa protagonizar a imortalidade, a devoção, o assédio, a falta de privacidade, as expectativas em torno da imagem criada por uma equipe de profissionais que fatura alto.

Têm de pagar as contas como todos nós, têm de ralar. Mas, se não fosse a fama, talvez conseguissem viver num padrão mais em conta.

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Por outro lado, tem aqueles que atingiram de alguma forma seus 15 minutos e depois, no anonimato, quererem mais. Posam como vieram ao mundo para revistas, criam factoides, engolem isqueiros, num gesto desesperado de dizer "ei, estou aqui, eu existo ainda".

Como os inúmeros BBBs que vivem de bebezices por dias, para, tirando algumas exceções, sumirem do mapa, exilados para a mortalidade. Querem mais, querem outros 15 minutos. E se não conseguem, se queixam de nós, público infiel que os abandonou.

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O que, afinal, é a fama? Reconhecimento pelo trabalho e talento? Mas que tipo de talento deseja imortalizar um BBB, o de fazer conspirações numa casa fechada com outros ex-anônimos lunáticos?

Serem reconhecidos, ganharem permutas em academias de ginástica, convites para festas e camarotes vips? O que suscita a fama, no sentido de chegar a ela e depois querer fugir dela, quando a mesma é exacerbada?

A fama contém uma ambiguidade particular. Vicia e, como todo vício, corrói. Dá o prazer momentâneo de uma droga, mas tira o chão por onde se pisa. E, depois que se chega lá, perde a graça. Banaliza.

Há uma apropriação de todos por quem o famoso é, uma aprovação que acomoda. Dá um prazer limitado e também restringe, porque ao mesmo tempo que o público os ama, critica cruelmente e expõe suas fraquezas. É duro viver em dois polos tão extremos. Tem um preço.

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