Maior soulman da rua era o maior soulman de hoje

"Sinto de fato um espírito sagrado me tomando", diz o cantor que era homeless e virou um fenômeno em 2 anos

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2013 | 02h12

Todo soulman que se preze tem de ter um apelido. Charles Bradley ganhou o nome de guerra de "Screaming Eagle of the Soul", ou Águia Berrante da Soul Music. De bate-pronto, ele mesmo não lembra quem lhe deu. Talvez o apelido se deva ao seu parentesco ancestral com Screamin' Jay Hawkins (1929-2000), pioneiro de todo o funk e soul americano.

Mas o fato é que a primeira e imediata associação de quem ouve sua música é com James Brown. Ele viu o Godfather of Soul quando tinha 18 anos, no Apollo Theater, e passou a imitá-lo. Mas foi só em 1996 que ele realmente começou a personificar o homem que diziam ser parecido com ele. Adotou o codinome Black Velvet e ganhava uns trocados fazendo mímica de JB.

Com sua banda eminentemente judaica (assim como os parceiros de composições) Bradley esteve no Brasil ano passado, para a Virada Cultural. Os que viram, piraram.

Porque demorou tanto tempo para você ser descoberto?

Acho que eu deveria ter sido mais agressivo. Ter me imposto mais, buscado o meu lugar no mundo. Mas o problema é que não sou uma pessoa agressiva. Somente aos 62 anos é que me deram uma chance. Mas não tenho do que reclamar. Pago minhas contas com o meu trabalho, estou correndo o mundo, conhecendo culturas e nações.

Você acredita que tem agora toda a liberdade que precisa para criar?

Não, não acho. Ainda tenho de me submeter às escolhas de outras pessoas. Amo todos os que estão ao meu redor nessa caminhada, eu os respeito. Agradeço por terem me dado essa chance na indústria musical, esperei muito por isso. Dei o meu coração para conseguir essa chance, é a forma como posso retribuir. O que mais eu poderia querer? O palco é o meu lugar, é a única coisa que me faz sentir bem. Eu sempre amei cantar, é essa a razão pela qual aceito todas as condições que me sugerem.

Em alguns dos seus shows, você costuma dizer à sua plateia: "Vocês estão se sentindo como se estivessem na igreja?". Você se sente como um pastor, um homem de Deus?

Quando eu subo no palco, isso me transforma. Sinto a música me tomando, tudo em mim reage espiritualmente. Sinto que posso ajudar as pessoas a abrirem suas emoções, a traduzir sentimentos como raiva, amor. Sinto que posso fazer algumas palavras ajudarem as pessoas a acharem a sua dignidade. Sinto de fato um espírito sagrado em mim. Mas não quero transformar as pessoas em religiosos, em crentes, não se trata disso. O que eu faço é transmitir, com o dom que Deus me deu, a mensagem do amor. Todos nós temos um dom. O que eu digo é: use o seu dom sabiamente, use-o para engrandecer a humanidade. É uma mensagem de amor e compaixão.

Você tem uma música nesse novo disco, Why is it so Hard(to Make it in America?). Eu pergunto: o que é mais difícil de viver na América, em sua opinião?

Bem, você vê que eu levei 62 anos para ter uma chance. O sonho americano não é algo ao alcance de todos. Acho que os Estados Unidos precisam se dar conta de que o ser humano tem direitos, que merece uma chance. Há muita corrupção, muita discriminação. Eu acho que os líderes têm uma única obrigação: dar oportunidade a todos, de forma igual. Não falo só dos políticos. Todos nós temos a obrigação de fazer algo para dar uma vida melhor para as próximas gerações.

Seu disco contém canções que falam de amores perdidos e também de esperança. De onde vêm seus temas?

Alegria, tristeza, glória, derrota: todos os temas são um só. Todos os homens são um só. Você só precisa saber explorar isso de forma sincera quando escreve uma canção. Uma canção tem de falar ao coração.

Qual foi a grande lição que você tirou dos tempos em que dormia nos vagões de metrô de NY?

Minha avó sempre me dizia: você não pode perder de vista aquilo que tem dentro de si. A única coisa que me restou das ruas foi o amor. A maior lição que eu trouxe de lá foi ser eu mesmo, sempre achar um jeito melhor de não deixar de amar.

Como surgiu seu apelido, A Águia Berrante do Soul (Screaming Eagle of Soul)?

(Bradley pergunta a alguém atrás de si: "Quem me chamou de Screaming Eagle?"). É isso, foi Mike Deller, da Budos Band, quem me chamou assim primeiro. Tem a ver com o jeito como eu agito os braços no palco enquanto canto.

Você esteve no ano passado no Brasil, para um megafestival ao ar livre, a Virada Cultural. Como foi a experiência.

Deus, era como se eu estivesse em minha casa. As pessoas me abraçavam, me transmitiam muito amor, doçura. Amei a plateia, era uma reação natural, o seu País é extraordinário. Há muito do espírito do amor em todo lugar e eu amei as pessoas, a comida, os lugares. Não vejo a hora de voltar.

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