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Maior feira de livros do mundo abre edição na quarta-feira

Produção nacional terá destaque na feira, que custará R$ 18 mi ao País

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

04 de outubro de 2013 | 21h28

Depois de três anos de preparativos – intensificados no primeiro semestre de 2013 – e de um investimento público de R$ 18 milhões, o Brasil chega esta semana, enfim, a Frankfurt. E chega sem seu maior best-seller, Paulo Coelho, o brasileiro mais traduzido no mundo, que, tendo sido escalado para integrar a comitiva oficial, desistiu da viagem ao ver que autores como os também best-sellers Eduardo Spohr e Thalita Rebouças, tidos mais como comerciais do que literários, não foram convidados.

“Fiz o que pude para levá-los. Sem sucesso. Então, em protesto, decidi não ir a Frankfurt, o que foi difícil por vários motivos. Um deles: porque eu sempre quis ser convidado para um evento como esse pelo governo do meu país”, disse o mago em entrevista ao diário alemão Die Welt que será publicada no sábado, 5. Vale lembrar que, em 2008, ao comemorar 100 milhões de exemplares vendidos, Coelho ganhou, de sua editora alemã e da Mercedes Benz, uma festa que até hoje é comentada nos bastidores da feira. Ele certamente causaria furor na edição deste ano.

Paulo Coelho não vai. Também não vão muitos escritores negros ou indígenas na excursão oficial – só Paulo Lins e Daniel Munduruku. E isso motivou críticas de racismo, rebatidas pela ministra Marta Suplicy e por Jürgen Boos, presidente da feira. “Claro que poderia ter muitos outros, mas já foi uma conquista não ter sido esquecido”, disse Munduruku, autor de 44 livros – alguns dos quais publicados no Canadá, na Coreia e na Espanha. Ele aproveita a ida à Alemanha para acertar duas novas traduções para o alemão e para o francês.

Um dos critérios de escolha desses 70 autores foi o fato de terem obras traduzidas ou em tradução para outras línguas. E, nesse quesito, a reformulação do programa de bolsa de tradução da Biblioteca Nacional foi de grande ajuda. Pelas contas de Boos, foram lançadas, no último ano, mais de 260 obras brasileiras no mercado alemão – cerca de 200 de não ficção. O fato mais curioso é que quase todos os convidados são ficcionistas. Para citar alguns, de diversas gerações: João Ubaldo Ribeiro e Ignácio de Loyola Brandão, cronistas do Caderno 2, Luiz Ruffato, que fará o discurso de abertura, e ainda Adélia Prado, Ana Maria Machado, Daniel Galera e Ferréz.

A não ficção será uma das atrações do estande da Edusp, que participa este ano pela primeira vez com um espaço próprio.

Uma vitrine literária

Entre as feiras de livro realizadas mundo afora, a de Frankfurt é a maior de todas, ocupando uma área equivalente a 14 campos de futebol. É a mais importante, já que é ali que se negociam os direitos dos livros que serão publicados futuramente. Seu público é formado por mais de 300 mil profissionais do mercado editorial. São 7.500 expositores de 110 países. E ela é, possivelmente, a mais curta – será aberta na quarta-feira, dia 9, e se estenderá praticamente até sexta. No sábado e no domingo, quando é permitida a entrada do público, os profissionais já estarão longe dali.

O grande desafio é aproveitar a vitrine oferecida pela Feira de Frankfurt ao escolher o Brasil como convidado de honra e promover ações contínuas de promoção da literatura nacional em outros mercados, diferentemente do que foi feito depois de 1994, quando o País também foi homenageado e não houve muito avanço na presença internacional. [/TEXTO

Com esta homenagem, quem ganha são os autores daqui, as editoras estrangeiras – que se beneficiam das bolsas de tradução – e, em menor medida, as editoras brasileiras. O investimento maior, porém, será público.

Os ministérios da Cultura e das Relações Exteriores estão gastando R$ 18 milhões na programação dentro da feira (incluindo a montagem do pavilhão onde o País homenageado se apresenta, passagem e hospedagem dos escritores, etc.) e fora dela. Desde o final de agosto, Frankfurt tem recebido shows, peças de teatro e exposições – algumas dessas atrações continuam até o início de 2014. Trata-se de algo parecido com “o ano do Brasil na Alemanha”, mas com uma diferença: o objetivo maior é promover a literatura brasileira e, por consequência, o mercado editorial nacional no exterior.

Na outra ponta, está o projeto Brazilian Publishers, parceria da Câmara Brasileira do Livro (CBL), que congrega toda a cadeia do livro, e da Apex, a agência de exportação do governo, que investiu R$ 450 mil. É ele o responsável por organizar o estande do Brasil e acolher as 168 editoras participantes – outras terão espaço próprio, como é o caso da Edusp, que também vai promover debates, da Record e da Companhia das Letras, entre outras.

A CBL teve autorizada a captação de R$ 13 milhões, que, conforme disse o presidente da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), Renato Lessa, em entrevista ao Estado quando assumiu o posto, poderia diminuir o investimento governamental. Procurados, FBN e MinC não responderam aos pedidos de entrevista do jornal para comentar esta e outras questões.

“A CBL teve como investimento direto na Feira de Frankfurt os custos operacionais de seus funcionários dedicados à organização do evento e o custeio da presença dos mesmos em Frankfurt. Não existe investimento financeiro direto. Não houve captação via Lei Rouanet”, informa Karine Pansa, presidente da entidade.

O estande terá 700 m² para as editoras mostrarem sua produção e para debates entre escritores e leitores. Haverá ainda uma cozinha-auditório. Pansa conta que 192 m² foram pagos pelo Brazilian Publishers e 508 m², por meio de convênio entre CBL e FBN. Quem não encontrou acolhida nesse espaço foi a Associação Nacional de Livrarias. “Queríamos apoio para ir e não conseguimos. Ligamos para a CBL pedindo a agenda oficial e fomos orientados a consultar o site. Entendemos que teríamos de ir de forma independente e estamos indo. E, quando nos pediram o logo para colocar no catálogo, não demos”, diz Afonso Martin, diretor financeiro da associação. Consultada sobre essa questão, Karine Pansa respondeu: “Acho salutar que as diferentes entidades tenham agendas próprias. Isso mostra o profissionalismo e a maturidade dos muitos segmentos do setor. Afinal, todos lutam pelo mesmo objetivo: a difusão do livro.”

O Sindicato Nacional de Editores não participa este ano. “Não há necessidade de as duas entidades organizarem o estande brasileiro, e o Snel preferiu dedicar esforços e recursos aos temas nacionais que nos impactam neste momento: lei dos direitos autorais, das biografias, os e-books, etc.”, diz Sônia Jardim, presidente da entidade.

De sua parte, a Feira de Frankfurt cedeu o espaço de 2.300 m² do pavilhão, organizou mostra com livros sobre o país, promoveu atividades profissionais com foco no Brasil na feira de 2012 e fez campanha com livreiros alemães.

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