Maior desafio de Marin é dar à Osesp identidade musical

A nova regente titular trabalhará com a Osesp, a cada ano, a partir de 2012, durante dez semanas - ou seja, cerca de 30% da temporada. Seu muito bem-vindo regente associado Celso Antunes, a surpreendente e excepcional pitada brasileira na troca de guarda, regerá três programas - isto é, ficará entre nós por meras três semanas a cada ano. Ao todo, 13 programas diferentes/semanas numa média anual entre 50 e 60 concertos. Compare: Tortelier regerá este ano sete programas em 58 diferentes; os restantes ficarão com 23 regentes convidados.

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2011 | 00h00

Mesmo assim, eles conseguirão moldar a orquestra (e o coro) a seu gosto? Será possível, nestas curtas e fragmentadas convivências com os músicos, construir um DNA próprio?

Às vésperas de comemorar 60 anos em 2014 sob o comando de uma maestrina, a Osesp acumula em sua história dois modelos básicos de gestão: na maior parte de sua existência, até 1997, viveu basicamente sob o signo de dois maestros. Autoritário, tirânico à moda antiga, Eleazar de Carvalho conviveu por 24 anos com escassas verbas e péssimas condições de trabalho; John Neschling, que sempre rezou pela cartilha de Eleazar, trabalhou sem limitações financeiras, ganhou a melhor sala de concertos do país de presente - e projetou-a internacionalmente.

Ambos, no entanto, eram muito presentes no dia-a-dia - para o bem e para o mal. De 2009 para cá, implantou-se o modelo tripartite, que transforma o maestro titular praticamente num regente convidado preferencial. Não foi outra a razão do distante vínculo de Tortelier com a orquestra nos últimos dois anos. Com isso, a Osesp viveu altos e baixos, dependendo de quem ocupava o pódio a cada noite e conseguia ou não impactar os músicos. Ou seja, perdeu seu DNA.

Pegar o touro à unha. Por isso, o maior desafio da nova maestrina titular da Osesp é moldar a orquestra à sua imagem e semelhança, dar-lhe uma identidade musical. Como fazer isso com uma agenda internacional abarrotada, em apenas dez semanas por ano? Segundo depoimentos de músicos da orquestra, o estoniano Krystjan Järvi, que regeu uma sensacional Sagração da Primavera de Stravinsky em junho, teria sido a primeira opção, mas foi rejeitado por exigir autonomia e maior presença no pódio.

Não é impossível uma excelente convivência tripartite e, em consequência, uma evolução que leve a Osesp a patamares ainda mais altos na vida musical brasileira e internacional. Mas é fundamental que tenhamos a chance de conhecer por inteiro todos os componentes multifacetados que compõem a forte personalidade artística de Marin Alsop. Se em Baltimore ela é uma grande divulgadora, em concertos e gravações, da música norte-americana contemporânea, aqui deveria fazer o mesmo com nossa música. "Yes, she can" é a torcida. Afinal, ela está acostumada a brigar por seus espaços: antes de vencer a batalha pelo reconhecimento ao seu talento, Marin teve de lutar duramente para se impor num universo historicamente dominado pelos homens.

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