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Maio de 68 em Paris

Aristocrático e populista, um brasileirinho foi uma coisa e outra no Maio de 68 em Paris

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

02 Maio 2017 | 02h00

Em maio, recomendam os franceses, faça o que lhe der na telha – e, dentro do calendário e obediente ao espírito, começo por dar essa tradução livre a “en mai, fais ce qu’il te plaît”. Sem a correspondente rima interna, mas reforçando a recomendação: vá fazer em Paris, com seus telhados de ardósia, o que lhe der na telha. 

Tive uns tantos maios lá, todos inesquecíveis, e outros mais terei, se Deus (ou alguém por Ele) quiser. E sigo lamentando não ter estado ali no mais memorável maio que Paris já teve, o de 1968. Nos meus 23 anos, desmonetizado mas disponível como nunca mais seria, por certo teria ido, se soubesse da rebelião que fez de Paris uma inusitada festa.

Ainda hoje me mordo de inveja dos amigos que viveram in loco o louco Maio de 68. Um deles, o José Francisco, morava na Maison du Brésil, na Cidade Universitária, a casa lecorbusiana onde, na mesma condição de bolsista do governo francês, eu haveria, cinco anos mais tarde, de ocupar por uns meses o quarto 106. 

Na cidade, em maio de 68, nada funcionava, a não ser o destemor e a criatividade dos moços em revolta. Nem sei como pôde chegar ao José Francisco aquele recado: o embaixador do Brasil, conterrâneo e amigo da família, do sul de Minas, estava de volta ao posto, vindo de carro de Bruxelas, pouso mais próximo, pois o aeroporto de Orly estava fechado. 

Sua Excelência, acompanhado de sua excelentíssima, trouxera do Brasil um punhado de dólares, amealhados no cofrinho da mãe do José Francisco. O problema era como entregar a bufunfa, que imagino acondicionada num daqueles envelopinhos bordeados de verde e amarelo que, mesmo quando sem dinheiro, tinham o poder de remunerar com alegria quem vivesse longe da pátria. 

Para entrar na posse da inesperada fortuna, o José Francisco, àquela altura à míngua até dos magros francos de sua bolsa francesa, teria que se abalar até a residência do embaixador, situada, dir-se-ia em Minas, a léguas da Cidade Universitária. 

Doce problema, mas problema. Na falta de ônibus, metrô ou táxi, e mesmo de um camelo, como aqueles em cujo lombo seus antepassados atravessavam lonjuras desérticas no Oriente Médio, lá se foi o meu amigo, nem um pouco dado a exercícios físicos, cruzar a pé uma Paris cravejada de barricadas, várias delas em chamas, rumo aos dólares que por ele esperavam num subúrbio elegante da capital francesa. 

No caminho, cruzando o Quartier Latin, deparou-se ele com a Rue Gay-Loussac inteiramente descascada, quer dizer, desprovida de seus pavés não comestíveis. Os cubos de pedra do calçamento tinham sido arrancados pelos estudantes para servir de munição contra os brutamontes da CRS – a Companhia Republicana de Segurança, recebida também com um coro de provocação rimada que associava a polícia de De Gaulle, o general presidente, aos carniceiros da SS, a Schutzstaffel dos nazistas que na Segunda Guerra desmandaram em Paris: “CRS, SS,/ CRS, SS!”.

Descascado o pavimento ao longo de uma noite de refrega, a Gay-Lussac amanhecera transformada numa extensa faixa de areia, a areia amarelada sobre a qual se assenta o calçamento das ruas de Paris. “Sous les pavés, la plage”, rabiscara numa parede algum poeta anônimo, versão atualizada de outro revoltoso, o adolescente Arthur Rimbaud, que por ali terá passado 100 anos antes, rumo à Closerie des Lilas, onde, com uma taça de absinto, o aguardava o namorado Paul Verlaine. “Sob as pedras da rua, a praia”, traduziu José Francisco, sem absinto mas em êxtase poético.

Hora e tanto mais tarde, já de posse de seus dólares, o moço fez o caminho de volta, cruzando, primeiro, a Rive Droite, região da cidade à qual, naqueles dias, mais que nunca se aplicava esse “droite”, em oposição ao esquerdismo crepitante no lado duplamente “gauche” do rio Sena. 

Para surpresa do José Francisco, a cautela da grande pecúnia não fechara todas as portas do comércio chique da Rue du Faubourg Saint-Honoré. E foi por uma delas que entrou o esfaimado bolsista, acostumado a mal e mal matar a fome com o cardápio básico do “resto-U”, o restaurante universitário. Seu vinho, em noitadas no Quartier Latin, só não chegava a ser zurrapa como aquele, em garrafa de plástico, de que se encharcavam os clochards, os mendigos, nas ruas de Paris. 

Mas era maio, mês de fazer o que dê na telha – e José Francisco, em quem havia em germe o ministro e magistrado de alto coturno que viria a ser, impecável também no trajar-se, cometeu enforcamento financeiro: torrou metade de seus dólares na aquisição de uma gravata. Se não torrou tudo, terá sido por força de pitos e ponderações que das entranhas de Minas lhe soprou a mãe árabe-mineira. 

Meia hora depois, no ambiente mais plebeu do Quartier Latin, topou José Francisco com outra porta aberta, a de um modesto comércio de gêneros alimentícios – e, zerando o conteúdo do envelope auriverde, de lá saiu carregado de víveres com que aplacar a fome dos camaradas sublevados na Cidade Universitária, uma vez que, sendo maio em Paris, assim lhe deu na telha.

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