Mahler, ritual de pura sedução

Sua 7ª Sinfonia foi ouvida numa quinta-feira memorável, com a Osesp e a regente norte-americana Marin Alsop

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2010 | 00h00

Nenhum compositor foi mais estudado, analisado e esquadrinhado do que Gustav Mahler nas últimas décadas. Ligar suas monumentais sinfonias aos lances dramáticos de sua biografia pode parecer ingênuo e fazer torcer os narizes mais eruditos. Mas a verdade é que é impossível desvincular vida e obra neste caso (Barthes que me perdoe).

Até os vienenses revolucionários comandados por Arnold Schoenberg capitularam ao poder de sedução específico desta sinfonia, que fazia nascer o novo de modo mágico das entranhas de estruturas aparentemente clássicas do gênero sinfônico. Erwin Stein, aluno dileto de Schoenberg responsável por um belíssimo arranjo da quarta sinfonia de Mahler, escreve que o scherzo central da sétima "é o medo do escuro de uma criança que Mahler descreve de maneira compassiva".

Schoenberg captou a mensagem exata, fugindo dos lugares-comuns sem ser técnico em demasia, numa carta ao compositor sobre a Sétima Sinfonia, que a Osesp interpretou na quinta, em rara integração com a regente americana Marin Alsop. Vale a citação porque mostra como este parto da modernidade, no caso de Mahler, é ao mesmo tempo inovador e aconchegante.

Há na sétima sinfonia, diz Schoenberg, "perfeito repouso baseado em harmonia artística; algo que me pôs em movimento sem perturbar o meu centro de gravidade e deixando-me entregue ao meu destino; que me atraiu calma e agradavelmente para a sua órbita (...) de maneira tão comedida que nunca houve quaisquer sobressaltos súbitos (...) Senti muitas sutilezas de forma".

O crítico inglês Michael Kennedy, num precioso livrinho ainda encontrável nos sebos (Mahler, Jorge Zahar, 1988), acerta na mosca em duas argutas sacadas. Primeiro, ao afirmar que a unidade desta sinfonia não se assenta, como o habitual, numa sequência de tonalidades dos cinco movimentos. A unidade deve-se a uma "inevitabilidade emocional" que se sente progressivamente na audição. E depois ao chamar a atenção para um detalhe: apesar da superexposição dos metais e madeiras nesta obra de mais de 70 minutos e cinco movimentos, pode-se medir o êxito de sua interpretação pela capacidade das cordas de usar corretamente, e de modo sutil, o portamento (são os deslizes intencionais, nos instrumentos não temperados como as cordas, entre uma e outra nota). Houve uma ou outra falha de emissão nos metais, normais numa obra deste porte.

Tais observações são necessárias para avaliarmos em toda a sua extensão a memorável execução da Sétima Sinfonia da quinta-feira. Marin Alsop, num terninho preto básico, deixou as mangas vermelhas sobressaírem, mesmo para quem estava no mezanino da Sala São Paulo. E, embora sua regência não seja tão espalhafatosa quanto a de seu guru Bernstein, tem como ele um domínio total da partitura. Mas isso não basta, sabemos.

Como Mahler fez com Schoenberg pouco mais de um século atrás, ela nos fez entrar no grandioso universo desta sinfonia.

De repente, era como se participássemos de um ritual. Ou melhor, de vários rituais. Incrível, por exemplo, a leveza que Alsop imprimiu à segunda música noturna, o Andante amoroso em que sobressaem o bandolim e o violão - declaração de amor do compositor a sua mulher Alma.

Apoteose. Por outro lado, conseguiu fazer-nos acompanhar, passo a passo, a densa arquitetura de movimentos longos sem jamais rotinizar a execução. Imensos arcos dinâmicos, constantemente quebrados e multifacetados, ofereciam-se sedutores a nossos ouvidos. Até a explosão do rondó final, apoteose wagneriana que ela assumiu sem culpa.

Provavelmente, a Sétima Sinfonia de Mahler proporcionou a Marin Alsop e à Osesp o melhor concerto da temporada de 2010. Não por acaso, enquanto o público aplaudia inebriado, também os músicos batiam os pés entusiasmados. Há muito tempo não se via tamanha integração entre regente e orquestra. Na plateia, desconhecidos trocavam impressões - era como se, ao final de uma experiência dessas, fosse impossível permanecer calado. Na estreia em Praga, aliás, no dia 19 de setembro de 1908, o público não foi obrigado a permanecer calado: aplaudiu após cada um dos cinco movimentos.

OSESP.

Sala São Paulo. Praça Júlio Prestes, 16, telefone 3223-3966. Hoje (sáb.), às 16h30. Ingressos de R$ 36 a 122

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