Mahler recriado por completo

Mahler recriado por completo

Filósofo Jorge de Almeida recupera discurso musical do compositor em encontro com público na Sala São Paulo

João Marcos Coelho, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estadao de S.Paulo

26 de março de 2010 | 00h00

Por que ouvir Mahler hoje? O que sua música tem a nos dizer? A palestra de Jorge de Almeida, anteontem na Sala São Paulo, inaugurando o projeto Música na Cabeça, parceria da Osesp com o Estadão, com certeza abriu perspectivas e levou o ótimo público presente a ouvir sua obra de modo diferente. Diferente, no caso, quer dizer ouvir de maneira menos superficial. Almeida destrinchou a estrutura do discurso musical de Mahler num discurso claro e acessível, porém rigoroso. Nada em Mahler, já dizia Theodor Adorno, é o que parece. Esta foi a mensagem subliminar de uma exposição calcada no paralelo entre as sinfonias mahlerianas e o romance.

Adorno, filósofo como Almeida e estudioso da música do século 20, já qualificava as sinfonias de Mahler como "música definida como romance". Isto é, mesmo quando não há texto explícito, sua música sempre quer "contar" uma história. E, como Kafka, outro escritor lembrado pelo palestrante, o compositor serve-se dos aspectos mais banais para dizer as coisas mais terríveis.

Ficou claro, por exemplo, por que Mahler não foi entendido em seu conturbado tempo. Ele usou todos os tipos de música que compunham a diversificada moldura sonora de seu tempo, sem respeitar hierarquias. Tanto valia citar Frère Jacques como a poesia chinesa. Os exemplos são muitos - e Almeida, além de mostrá-los, enfatizou os subtextos muitas vezes irônicos que determinam tais citações.

Mahler trabalhou com os "cacos", os detritos de um mundo prestes a se despedaçar na 1.ª Guerra, mas já estilhaçado, agônico, na Viena da passagem dos séculos 19/20. Se a sinfonia "abraça um mundo inteiro", então as citações ultrapassam o mero nível da colagem.

Emoção. É curioso que Adorno tenha reclamado nestes termos: "A cultura musical média, domesticada pelo gosto e o progresso moderado, reacionária também socialmente, repudia Mahler." E repudia, continuava, porque "cheia de expressão, sem se envergonhar da própria emoção, sua música choca" a sensibilidade domesticada.

Cinquenta anos depois, Jorge de Almeida é obrigado a reavivar a música de Mahler por motivos opostos. Hoje ela agrada demais, mas pelos motivos errados. Mahler virou ícone - um ícone de modernidade fácil de ser assimilado, por causa das citações literalmente entendidas, por causa da ironia pela qual 99% dos ouvintes passam batidos.

Daí a importância de palestras como esta, para nos devolver o verdadeiro significado desta música. O único erro foi a utilização de exemplos musicais apenas com áudio. Isso empobreceu a palestra. Teria sido mais esclarecedor oferecer os mesmos trechos das sinfonias em DVD. Existem integrais primorosas, como a pioneira de Leonard Bernstein ou a de Haitink. A observação só não vale para o lied A Paz Celestial, quarto movimento da Quarta Sinfonia. Almeida mostrou uma iguaria rara: o próprio Mahler, gravado no sistema de rolos perfurados Welte-Mignon, tem o seu piano acoplado à soprano australiana Yvonne Kenny, de 59 anos. Ao todo, o disco oferece quase 40 minutos de Mahler tocando - e é eletrizante, fique certo. O CD Mahler Plays Mahler está disponível na Amazon.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.