Mahler inesquecível

"Sei muito bem que como compositor não terei reconhecimento em vida. Espero este reconhecimento para mais tarde, quando já estiver morto. É a distância necessária para uma adequada avaliação de um fenômeno como o meu" - essas palavras foram pronunciadas, um século atrás, por Gustav Mahler. Soam proféticas hoje. Naquele momento, ele desdenhava até sua imensa fama como maestro; lamentava a incompreensão de seus contemporâneos em relação às suas obras.

O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2011 | 03h06

Mahler esperou cerca de 50 anos. Na década de 60, o maestro norte-americano Leonard Bernstein gravou pela primeira vez suas sinfonias e ciclos de Lieder sinfônicos. Nós, brasileiros, fomos obrigados a esperar cem anos para finalmente assistirmos a uma integral mahleriana digna como a que a Osesp concluiu na quinta-feira passada, na Sala São Paulo. O maestro Eleazar de Carvalho, nos anos 70/80, e numa penúria de dar dó, teve a coragem de realizar ciclos Mahler no Teatro de Cultura Artística. Não tinha grandes solistas, os músicos ganhavam pessimamente. Tudo fica mais fácil, é óbvio, quando se tem orçamento compatível com o sonho.

A escolha da sinfonia n.º 2 no concerto final do ciclo foi emblemática. O coral cantou Ressuscitarás! e O que foi gerado deve perecer, que pereceu deve ressuscitar! no movimento final. E esses versos de Mahler devem ter remetido muitos dos presentes ao memorável concerto de inauguração da Sala São Paulo, quando essa mesma sinfonia foi executada de forma emocionante e simbólica. Afinal, a Osesp começava a renascer no dia 9 de julho de 1999, pela música de Mahler, regida por John Neschling. Não tem sentido comparar uma e outra performances, até porque na década que as separa a orquestra deu um gigantesco salto de qualidade.

Em todo caso, a regente Alondra de la Parra, do alto de seus 31 anos completados no último dia 31 de outubro e também a bordo de um belo rabo-de-cavalo, demonstrou uma segurança inesperada na condução de uma sinfonia de arquitetura tão ampla e diversificada que costuma atrair regentes incautos para fragmentações que a tornam desinteressante. Com gestos precisos e pleno domínio de uma vastíssima massa orquestral e vocal, ela conseguiu irmanar a todos nesse movimento de morrenasce mítico proposto por Mahler. Entre as duas solistas, a brasileira Ludmilla Bauerfeldt mostrou belo timbre, sobretudo nos agudos, mas empalidece nos graves; já a contralto Jennifer Johnston é irretocável, além de demonstrar uma potência vocal admirável.

As expectativas eram muito grandes, pela escalação dos regentes e também pelos solistas vocais. Em ambos os casos, nomes reluzentes e muito promissores no cenário internacional. Por isso mesmo, um dos acertos foi distribuir as nove sinfonias, a Canção da Terra e os "Kindertotenlieder" durante as duas temporadas, de 2010 e 2011. Desse modo, houve tempo para preparação específica de cada uma destas obras monumentais - inclusive para o público, que teve em Jorge de Almeida, autor de várias palestras na Sala São Paulo por meio do projeto Música na Cabeça, um esplêndido guia para o público (além disso, Almeida fez uma série primorosa de programas Mahler na Rádio Cultura FM, em que é possível combinar a fala com a própria música, disponíveis em podcast no portal da rádio).

Em compensação - e confesso que não tenho certeza de que fosse melhor o mesmo maestro à frente de todas as sinfonias -, regentes tão diferentes, embora em geral talentosos e competentes, provocaram, quando se olha em perspectiva, uma integral desequilibrada. Não tivemos um, mas vários Mahlers ao longo destes dois anos. E muitos deles claramente conflitantes.

Do lado bom, os exemplos poderiam multiplicar-se, mas basta lembrar a justeza da sétima e da quinta sinfonias de Martin Alsop, em 2010/11. Ou então a extrovertida performance de Roberto Minczuk, também ano passado, na Sinfonia n.º 1 - Titã. Brown, Guerrero e sobretudo Thomas Dauusgaard foram muito bem. Contaram com divas em estado de graça, como Nathalie Stutzmann e Petra Lang.

Se fosse possível, porém, escolher o melhor concerto Mahler destas duas temporadas, fico, sem patriotismo nenhum, com um brasileiro. A carga emocional que Isaac Karabtchevsky passou aos músicos no Adagio final da Nona Sinfonia é coisa para não ser esquecida.

Desde o início da lancinante melodia nas cordas até o pianíssimo final, por cerca de 30 minutos, o mundo lá fora pareceu imóvel. Tudo acontecia naquele palco. Execuções irretocáveis. E o público acompanhava com a respiração suspensa, eletrizado. Escrevi dois dias depois do concerto que são esses momentos que justificam a paixão pela música - tanto de quem está no palco como dos que estão na plateia - e comprovam sua importância nas nossas vidas. Um bom concerto é assim, a gente não esquece.

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