Mahler em uma versão divina

A pesar de todos os ingressos vendidos, muitos não conseguiram chegar por causa da chuva. Eram várias as cadeiras vazias quando o maestro costa-riquenho Giancarlo Guerrero iniciou o primeiro e imenso movimento da monumental Sinfonia n.º 3 de Gustav Mahler, na quinta, na Sala São Paulo. A imponente melodia em ré menor das trompas instaura uma "opressiva solenidade", como escreveu um crítico que assistiu às primeiras execuções da obra regida pelo compositor em Viena.

, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2010 | 00h00

Cinco minutos iniciais de arrepiar, em que os metais dominam. Aos poucos, os demais naipes se incorporam, para desfilar uma série de versões, ora quase circenses, ora solenes, de uma bizarra marcha. Costuma-se exemplificar o gosto do compositor em contrapor a grande música com os "sons da rua". Mas é neste movimento classificado pelo próprio Mahler de "monstruoso" que ele vai mais fundo nessas justaposições que quase se sobrepõem, num procedimento que antecipa, por exemplo, o norte-americano Charles Ives.

Não é fácil manter o público atento em mais de uma hora e meia de música. Mas o excelente maestro conseguiu realizar uma rara interpretação, coadjuvado por uma Osesp ligadíssima, com metais incandescentes (antológico o solo de trompete oculto no terceiro movimento e a performance das trompas e dos trompetes e trombones); madeiras precisas; percussão exemplar; e cordas calorosas.

Uma das grandes qualidades desta execução da sinfonia foi o modo como Guerrero enfatizou a estrutura da obra. O que à primeira vista pareceu uma mão um tanto pesada do regente numa dinâmica quase sempre do forte para o fortíssimo no primeiro movimento, de fato serviu para separar os blocos estruturais da sinfonia. Afinal, o tema principal só retorna no imenso Adagio final. Entre eles, um delicadíssimo "Scherzando" instrumental e dois movimentos vocais.

Ouvir os versos de "O Mensch", do livro Assim Falou Zaratustra, de Nietzsche, com a contralto francesa Nathalie Stutzmann tornou a noite ainda mais rara. Sua voz possui um timbre escuro e quente especial. Guerrero conduziu a orquestra no limite, sem encobrir jamais voz tão bela. Precisas também as intervenções do coro infantil e das vozes femininas do Coro Osesp.

Tudo isso levou nossos ouvidos a se surpreenderem reconhecendo, no maravilhoso Adagio final, o tema da abertura, desta vez uma mistura de solenidade com emoção, sem ironia.

Foi particularmente feliz o calendário da integral de Mahler da Osesp colocar, a poucas semanas de distância, a 7.ª e a 3.ª sinfonias. Ambas não são as mais amadas pelo grande público, talvez por serem muito ousadas.

Empreitadas como esta integral são importantes justamente por causa disso: chamam a atenção do público para obras menos conhecidas. Assim, alarga-se de fato o horizonte de quem gosta de música.

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