Magro morre aos 68 anos

Integrante do mítico grupo vocal MPB-4 e autor dos arranjos de Roda Viva e Construção, de Chico, tinha câncer

O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2012 | 07h52

Morreu na manhã de ontem, no Hospital Santa Catarina, em São Paulo, aos 68 anos, o cantor, arranjador, clarinetista, saxofonista, percussionista, compositor e tecladista Antonio José Waghabi Filho, o Magro, integrante do mítico conjunto vocal MPB-4. Ele tinha câncer.

Magro foi o responsável por um dos arranjos mais celebrados da música brasileira, do disco Construção, de Chico Buarque (também fez o arranjo de Roda Viva, uma obra-prima da MPB). Em Os Saltimbancos, também de Chico, Magro celebrizou o personagem Jumento.

Magro, com Miltinho, Rui (depois Dalmo) e Aquiles, formou o mais celebrado grupo vocal do País no último meio século. Seu trabalho com Chico Buarque em um período de 10 anos foi tão simbiótico que chegavam a chamá-los de "MPB-5". Magro vinha de Itaocara e fora vibrafonista do conjunto Praia Grande, em Niterói.

Quando surgiram, chamaram a atenção por não imitarem a sonoridade dos conjuntos vocais americanos. "Isto era uma opção estética. E política. Eu era o arranjador e nós quatro fizemos a opção de escapar da sonoridade dos quartetos americanos. Nós ouvíamos e gostávamos dos grupos americanos, mas estávamos saindo do CPC e ia contra tudo o que acreditávamos soar como um grupo americano. A ideia de cantar em uníssono, que nos marcou e rendeu críticas, virou estigma, era consciente: servia para valorizar a letra".

O grupo MPB-4 começou a carreira em 1963, no Centro Popular de Cultura (CPC) de Niterói. Magro foi o último a entrar, trazido por Miltinho, seu colega no curso de Engenharia. O conjunto se profissionalizou em 1965, ocasião em que Araci de Almeida disse sua famosa boutade a respeito do nome escolhido. "Lembra prefixo de trem", afirmou.

Em seus primórdios, o MPB-4 considerava que Os Cariocas tinham uma extensão vocal muito maior que a deles. Optaram por outro caminho, embora assumissem influências não só de Os Cariocas, mas também de Os Farroupilhas e o Trio Irakitan. "Eu não tinha nem prática nem teoria para fazer arranjos. Naquela época, armávamos uma vocalização, gravávamos e ouvíamos o resultado que, quase sempre, ficava parecido com alguma coisa", disse Magro (em 1975).

Viviam em uma casa na Rua República do Peru (que virou nome de um se seus shows). Em 1966 começaram a participar dos festivais de música, defendendo Canção de não Cantar, de Sérgio Bittencourt (filho de Jacob do Bandolim). Foi quando Chico de Assis os apresentou a Chico Buarque. O MPB-4, Chico Buarque e Odete Lara passaram a fazer um show na boate Arpège, no Rio. O show se chamava Meu Refrão, logo trocado para Pra Ver a Banda Passar, pegando carona no sucesso de Chico, A Banda. Ontem, o grupo se despediu do colega com uma mensagem no site oficial: "Com ele vai junto uma parte considerável do vocal brasileiro. Com ele foi a minha música", lamentou o parceiro Aquiles Rique Reis.

Foi Magro o responsável pelas notas a respeito do último disco do grupo, Contigo Aprendi (Biscoito Fino, 2012), no qual se aprende muito sobre as influências da banda: "Agustin Lara escreveu Solamente una vez, que, na versão de Fernando Brant, recebeu o título Eu Amei uma Vez. Um bolero com uma bela versão e uma curiosidade: é só ouvir o arranjo vocal que você vai perceber que ele não é meu nem é do Miltinho. E de quem é, então? É de um ídolo nosso, Carlos Vianna. Ele foi arranjador de um grupo vocal dos anos 1960, que nós do MPB4 admirávamos muito, O Quarteto. Quis o acaso e a sorte que eu reencontrasse esse amigo aqui em São Paulo."

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