Mago misterioso e encantador

Em trabalho que mistura biografia e análise, Michael Maar investiga o fascínio provocado[br]pela escrita do autor russo Vladimir Nabokov e flerta com a difícil relação entre vida e arte

JOHN BANVILLE/ THE NEW YORK REVIEW OF BOOKS, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2010 | 00h00

A mais notável característica da obra de ficção de Vladimir Nabokov é a de exceder a realidade. Num dos seus muitos pronunciamentos sobre a arte da literatura, o autor disse que "existem três pontos de vista a partir dos quais um escritor pode ser considerado: como um contador de histórias, como um professor e como um mago. Um grande escritor combina os três". Certamente ele se insere em todas as categorias.

Nabokov (1899-1977) nos conta uma história maravilhosa e nos ensina muitas coisas sutis e intrincadas, torna tudo verdadeiramente mágico. Mas quando vamos além da superfície dessa fascinação por sua obra nos encontramos num mundo estranho, embora familiar. Seu estilo de prosa singular faz com que o mundo cotidiano brilhe, levando o leitor, como num passe de mágica, a um terreno que conhece - ainda que não se sinta à vontade dentro dele.

O mundo que a ficção de Nabokov nos apresenta é um estratagema de linguagem. E o que alguns deploram nele é a negação da liberdade imaginativa, dessa liberdade fantasiosa do leitor para imaginar e criar um mundo todo seu a partir do material oferecido pelo escritor. A versão fantástica daquilo que Nabokov nos oferece, para esses leitores desencantados, é um anestésico premeditado, uma forma de encurralar essa espontaneidade palpitante que é a essência da realidade ou, pelo menos, dessa versão da realidade a ser encontrada na ficção em prosa.

O tema do fantástico, da repentina transfiguração do familiar, é levantado no livro de Michael Maar, Speak, Nabokov. Em Bluebeard" s Chamber, Maar realizou uma grande investigação sobre as fontes da perene e traumática sensação de culpa de Thomas Mann, enquanto em The Two Lolitas fez um trabalho genial de pesquisa ao descobrir um espalhafatoso, mas bastante significativo, conto publicado na Alemanha em 1916 por um jovem escritor, Heinz von Lichberg, intitulado Lolita, que também fala de uma paixão desesperada de um homem de meia-idade por uma garota. Maar não foi tão grosseiro a ponto de acusar Nabokov de plágio, mas levanta a questão: Nabokov teria lido a história de Lichberg, a história ficou na sua memória e mais tarde o seu subconsciente o aprovisionou com o título e o tema de uma trama que se tornou a sua obra-prima? E se foi esse o caso, isso nos diz algo importante sobre o escritor? O leitor é que decide.

As pessoas, na obra de Nabokov, particularmente os narradores, com frequência atravessam o espelho da realidade cotidiana para entrar num mundo onde tudo o que se conhece se transforma num instante de intuição estática ou, de vez em quando, de terror avassalador. Em Speak, Nabokov, Marr qualifica este fenômeno como "experiência da água-viva", inspirando-se numa história de 1935, Torpid Smoke, em que o personagem principal, um jovem e sonhador imigrante vivendo em Berlim, sente que "como a luminosidade da água e a sua vibração atravessa uma água-viva, assim também tudo atravessava seu ser mais íntimo e essa sensação de fluidez se transfigura em algo como uma segunda visão".

Existe um outro modo, descrito numa história de 1926, Terror. Nela, o narrador, um poeta, visitando uma "cidade ao acaso", sai do seu hotel uma certa manhã, depois de várias noites sem conseguir dormir, e repentinamente vê o mundo "tal qual ele é realmente". "Minha linha de comunicação com o mundo se rompeu, eu estava só, o mundo estava só, e esse mundo não tinha sentido. (...) Vi o horror de um rosto humano. Anatomia, distinções sexuais, a noção de pernas, braços, roupas - isso tudo tinha sido abolido e diante de mim o que havia era algo muito simples... não uma criatura, porque esse também é um conceito humano, mas alguma coisa que passava diante de você." O fato de Terror ser escrito num estilo simples, sem "engenhosidade", sugere para Maar um "tom autobiográfico". Seu modelo é The Lord Chandos Letter, escrito em 1902 por Hugo von Hofmannsthal: "Em resumo, este é o meu caso: perdi totalmente a capacidade de pensar ou falar coerentemente sobre qualquer coisa." Para Maar, esta é "uma chave para o horror por trás da luz trêmula - o outro extremo da experiência da água-viva".

A tese de Speak, Nabokov é de que a base filosófica do trabalho do autor é o gnosticismo, atingido por meio de uma leitura de Schopenhauer. O elemento que define o gnóstico é a resposta à questão do mal na criação. Como pode haver tamanha monstruosidade no mundo se um deus bom o criou? A resposta gnóstica é de que não há apenas um criador, mas dois - além do deus verdadeiro, há o demiurgo, que barra a humanidade em seu caminho em busca do propósito da verdade. É o carcereiro que nos aprisiona. E apenas a fuga da prisão do corpo leva a alma à luz.

Se aceitamos a noção de que Nabokov como artista, e possivelmente também como homem, acreditava que nosso mundo é fruto do trabalho de um enganador monstruoso, então é preciso reconhecer que muito do que em sua ficção parece calculado e irritantemente irreal é, na verdade, perfeitamente realista e profundamente sério - e que o universo nabokoviano é um campo de batalha no qual o artista-criador é como um Jacó preso em uma luta sem-fim com o demônio-criador que nos comanda.

Trinta anos após a morte de Nabokov, estamos livres para perceber a presença extraordinária dos desejos - em especial do tema da ninfeta e uma preocupação frequente com o sexo - em toda a sua ficção. O mais impressionante sobre a menina de Lolita, escreve Maar, não é que tenha antecessores mas, sim, sucessores, uma vez que uma moça posando de adulta é um fenômeno recorrente no cânone nabokoviano. O escritor teria reagido violentamente contra qualquer pessoa que sugeriria a existência em sua vida dos desejos de seus personagens. Ainda assim, o mais inocente adepto da teoria da diferenciação entre a pessoa que sofre e a mente que cria vai se perguntar sobre a presença constante de sexo, culpa e terror na obra de Nabokov. No final das contas, porém, não é da nossa conta que tipo de demônio pessoal ele poderia estar exorcizando com sua obra. Ao considerar sua vida, o que realmente deveria importar para nós são os livros, de tirar o fôlego em suas descrições amorosas, suas luzes e sombras, e nas armas mágicas de um grande encantador. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

JOHN BANVILLE É ESCRITOR, AUTOR, ENTRE OUTROS, DE O MAR (NOVA FRONTEIRA, TRADUÇÃO DE MARIA HELENA ROUANET), VENCEDOR DO MAN BOOKER PRIZE EM 2005

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