Mago do sax, Delangle faz impossível acontecer

Francês encerra a temporada 2012 da Camerata Aberta

O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2012 | 02h09

O impossível pode acontecer quando se juntam um solista excepcional, fora de série, e um grupo de músicos competentes e dedicados. Mesmo que o repertório seja contemporâneo, aparentemente hermético. O solista convidado, saxofonista francês Claude Delangle, voltou duas vezes ao palco sob intensos aplausos. Deu dois extras: o segundo, "convencional", um Debussy; o primeiro, um complexo Boulez aplaudidíssimo.

Foi o que aconteceu anteontem, no Teatro Anchieta, do Sesc Consolação, no concerto de encerramento da temporada 2012 da Camerata Aberta. Delangle é um músico de exceção: dono de uma técnica mais do que superlativa, miraculosa, que lhe permitiu operar o milagre de, por meio da técnica da multifonia, tocar "acordes" no saxofone, que tocado por mortais é um instrumento melódico, capaz de emitir só uma nota de cada vez. Ele domina a complexa técnica de emissão simultânea de mais de uma nota da série harmônica, que exige digitações diferenciadas ou então acertando a embocadura e tensão na garganta para reforçar os harmônicos.

Seu instrumento tem história recente. Feito de liga de metal, apesar de pertencer à família das madeiras, foi inventado 172 anos atrás pelo belga Adolphe Sax, imediatamente adotado pelos compositores mais antenados do século 19 e adotado como símbolo do jazz. Tamanho fascínio tem o sax por causa da grande sacada de Adolphe: juntou as virtudes das madeiras e dos metais num só instrumento. Ele possui palheta simples fixada numa boquilha e o corpo de metal - curvo se for um alto, tenor ou barítono, retilíneo se for um soprano. Este corpo é acionado por chaves. Tem a sonoridade anasalada do oboé e a suavidade aveludada da clarineta, associadas a uma potência na emissão do som que o aproxima dos metais.

Professor desde 1998 no Conservatório de Paris, ganhou a cátedra por ser músico completo. Faz música popular, o repertório "tradicional" do século 19 e início do 20 (Bizet, Glazunov, Debussy, Ravel) e é especialista em música contemporânea. Por isso, tocou com autoridade ímpar o Concertino de Jacques Ibert, de 1935, que flerta descaradamente com o jazz e não abre mão da complexidade de escrita. Execução duplamente vitoriosa, do solista e da Camerata. Em seguida, embasbacou o público com Résurgences, peça dificílima de 1996 do compositor suíço Michael Jarrell.

Naquele momento, os aplausos a uma obra sutilíssima, que privilegiou os harmônicos e leves texturas, levaram o mago do sax aos citados extras inimagináveis: o final dos Dialogues de Pierre Boulez, em que ele alterna o sax alto e o soprano. Aplausos ainda mais intensos; Delangle pediu desculpas a Cássia Carrascoza para tocar no sax soprano a peça Syrinx, de Debussy, original para flauta solo.

O concerto teve na segunda parte outras duas obras importantes do repertório francês contemporâneo: Derives I de Boulez e Le Lac, de Tristan Murail, um dos iniciadores da música espectral. Execuções irretocáveis com regência de Guillaume Bourgogne. Mas seria injustiça não descrever a fabulosa e memorável performance de Claude Delangle.

Crítica: João Marcos Coelho

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