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Magnus Lindberg faz quatro concertos com a Osesp

É uma grande oportunidade de conhecer melhor a chamada estética finlandesa

JOÃO MARCOS COELHO - ESPECIAL PARA O 'ESTADO',

28 de novembro de 2012 | 02h09

Depois de ser o compositor em residência da Filarmônica de Nova York entre 2009 e 2012, o finlandês Magnus Lindberg, de 54 anos, faz o que a Osesp chama de "residência" de quatro concertos, entre quinta e domingo. Melhor seria qualificá-la de microrresidência mesmo. Nesta quarta-feira, 28, encontra-se com o público para um bate-papo; Marin Alsop rege a Osesp em duas de suas obras mais importantes entre amanhã e sábado (Concerto para Clarineta e Parada); e na tarde de domingo ele comanda a Orquestra de Câmara da Osesp num repertório retrospectivo de sua trajetória, incluindo as principais influências que sofreu como compositor (dele, executam-se Corrente, ...de Tartuffe, je crois e Souvenir; de Debussy, o célebre prelúdio ao entardecer de um fauno, e Talea, de seu guru espectralista Gerard Grisey).

Em todo caso, esta é uma grande oportunidade de conhecer melhor a chamada estética finlandesa, na verdade um trio de compositores e intérpretes afinados que conquistaram alto grau de exposição na vida musical internacional. Os três amigos incluem a também ótima compositora Kaija Saariaho, que completou 60 anos em outubro passado; e o maestro-compositor Esa-Pekka Salonen, 54 anos, mesma idade de Lindberg e ex-titular da Filarmônica de Los Angeles, que deu o lugar a Gustavo Dudamel para poder se dedicar à composição dois anos atrás.

Abrindo os Ouvidos. Lindberg estudou com Rautavaara ainda em Helsinque e passou pelos célebres cursos de verão de Darmstadt, onde teve aulas com Brian Ferneyhough e Helmut Lachenmann; na Itália, conheceu Franco Donatini; e em Paris, a partir de 1981, esteve sob duplos tutores: Vinko Globokar e Gérard Grisey. Ainda nos anos 70, fundou com Saariaho e Salonen a associação Abrir os Ouvidos e, em 1980, o grupo Toimii. Cinco anos depois, passou pelo Ircam, onde, segundo biografia oficial do célebre instituto francês, "sua música abriu-se a diversas influências que assimila e integra de maneira muito pessoal". O texto do Ircam alerta que o prodígio finlandês "manteve-se distante da estética pós-moderna". Mal se poderia prever que na virada do milênio, em 2001, o finlandês tivesse um caso de amor com a melodia (como se poderá constatar no concerto para clarineta). Diferenciado, é verdade, mas caso de amor mesmo.

Seduzido com a pregação espectralista de Grisey, passou a buscar a construção harmônica da música baseada na análise física do som, na expressão de Risto Nieminen, em artigo no livreto sobre a microrresidência de Lindberg. É desta época sua frase mais repetida por todos: "Só o extremo é interessante".

O repertório dos concertos paulistas é abrangente, cobrindo cerca de trinta anos, desde os inícios radicais até a produção mais recente. O Lindberg radical está presente em Corrente, de 1991. A obra mais antiga, ...de Tartufe, de dez anos antes, soa pós-moderna pelas citações de músicas de Rameau e Lully. Explica-se: ela nasceu a partir da trilha sonora escrita para uma peça de teatro do russo Bulgakov sobre Molière.

A partir dos anos 2000, adquiriu crescente prestígio internacional provocado pela execução cada vez mais frequente de suas obras pelas grandes orquestras europeias e norte-americanas. De certo modo, domesticou-se. Em entrevista de 2007, disse não gostar de música fragmentada demais. Prefere a "continuidade dos materiais", procura injetar a "ideia de uma direção à música". E acrescenta: "Algo deve mudar, entre o começo e o final de uma obra, deve haver drama".

Uma receita bem-sucedida na obra mais interessante deste buquê Lindberg: o concerto para clarineta, de 2002, que será solado aqui pelo músico que o estreou e fez a primeira gravação, o finlandês Kari Krikku, tendo Marin Alsop à frente da Osesp. Lindberg retoma a melodia, mas não de modo tradicional. Prefere trabalhar com 8 personagens, como se fosse uma peça de teatro, escreve Antii Haÿrynen no texto do CD, de 2005. Evoca no início a Rapsódia para Clarineta de Debussy e no final flerta com jazz. Agrada já na primeira audição.

MAGNUS LINDBERG

Sala São Paulo. Praça Júlio Prestes, 16, tel. 3223-396629.

5ª e 6ª, 21 h; sáb., 16h30. R$ 44/ R$ 149.

Nesta quarta-feira, 28, 19h30 (palestra, grátis)

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